A sociedade pós-moderna
tornou-se indolente para com a transcendência. Não se trata de um ateísmo
explícito – e por isso o Neo-Ateísmo
parece ser um movimento extemporâneo – mas uma apatia para com tudo que se
relacione com o Sagrado. O sagrado, quando existe, é instável, e não é
concretude – porque não se assume publicamente o sentido bíblico da confissão aberta de fé – o sagrado tornou-se
esfera não do geral, mas do particular, do privado.
A fé cristã
originalmente sempre foi pública, mas hoje corre-se o risco de cair naquilo que
Jesus falou: “se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do
homem se envergonhará dele, quando vier em sua glória do Pai e dos santos anjos”
(ver Lc 9.26 e também Mc 8.38 e, em Ap 21.8, a palavra, conforme a tradução, “tímidos”
ou “covardes”). Não é a toa que, em Ap 21.8, a palavra “tímidos” encontra-se
junto da palavra “incrédulos”.
A sociedade cristã
ocidental vive, hoje, uma contradição sem precedentes, de modo que a fé
tornou-se assunto proibido dentro da esfera pública – essa proibição, não legislativa, mas social, é algo muito sutil –, e tudo o que é
reverenciado publicamente é aquilo que é convencionado na agenda mediática, que
é uma agenda que, mais do que ser laica, é anticristã em sua essência, o que
não é difícil de perceber quando se possui o mínimo de discernimento
filosófico.
É dentro desse
contexto que é possível constatar o esvaziamento do significado profundo do
Primeiro Grande Mandamento, até mesmo dentro das igrejas mais tradicionais e
teologicamente fundamentadas, e na sociedade como um todo, disfarçado de
piedade para com os homens, podendo até se esconder embaixo daquilo que falou
João em I Jo 4.20, quando na realidade, o significado de amar o próximo, para
os apóstolos, sempre esteve intimamente ligado ao significado de amar a Deus
sobre todas as coisas.
O Primeiro Grande
Mandamento é: “amar a Deus sobre todas as coisas”, e o Segundo Grande
Mandamento é “amar ao próximo como a si mesmo”, e o segundo se submete ao
primeiro, do qual é inerentemente dependente, sendo ambos a manifestação do
mesmo amor, pois só existe um amor, isto é, o amor da Trindade.
O que João nos diz em
I Jo 4.20: “se alguém afirmar: ‘eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é
mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem
não vê’ ” não é desculpa para amar somente o próximo, pois para os apóstolos a
proeminência, acima de tudo, sempre foi o amor de Deus sobre todas as coisas.
Vivemos, porém, em um
tempo diferente dos apóstolos, em uma sociedade complexa, que bebeu valores cristãos,
gregos, judaicos, pagãos, orientais, todos misturados, e o humanismo e o antropocentrismo desencadeados pelo Renascimento e pregados no Iluminismo
se espalharam de forma sutil em toda a humanidade ocidental, de modo que o chamado
para amar a Deus sobre todas as coisas perdeu o sentido em uma sociedade
consumista e materialista, hedonista em sua essência, que vive a mentira do
Carpe Diem; esse chamado esvaziou-se.
Os cristãos, de certo
modo, submetem-se à agenda do secularismo, e vivem uma suposta adoração na
igreja aos domingos, mas experimentam o pragmatismo materialista no seu cotidiano, e
não têm coragem de denunciar, no dia-a-dia, as pregações anticristãs que a
sociedade dita, a todo momento, nas relações, inconscientemente, sem perceber.
Na sociedade
pós-moderna, a fé perdeu o sentido.
Assim, o suposto amor
ao próximo tornou-se clichê fácil e moralismo hipócrita, sem que haja amor
profundo, verdadeiramente. Querem um exemplo de alguém que amou profundamente o
próximo? Teresa de Calcutá. Sim, uma
cristã. Ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz, amou o homem, e nem por isso deixou
de amar a Deus, sobre todas as coisas, como pode-se perceber visivelmente em
suas inúmeras cartas.
Para mim, a
referência para o amor ao próximo é uma Teresa de Calcutá, que disse: “O amor, para ser verdadeiro, tem que doer.
Não basta doar o supérfluo a quem necessita, é preciso doar até que isso nos
machuque”.
O amor ao próximo,
segundo a escola do Cristianismo, é uma experiência de dor. E isso só poderá
compreender quem estudar o evento da Crucificação de Jesus e sua Paixão, e quem
viver, na essência, a dor inerente ao Cristianismo, que não exclui, jamais, a
felicidade. Ser cristão em sua essência é viver para o próximo e é ter felicidade
contagiante. Mas tudo isso começa com o amor a Deus sobre todas as coisas.
Esse texto terá
continuação. Continue conosco.
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Ler a continuação: A concretude do Primeiro Grande Mandamento (Segunda Parte)
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