segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Uma nova era: Compreendendo o sentido da Igreja

A Igreja – aquela que a nós se apresenta como tal – se perdeu e se desintegrou no curso da História. Não entendeu o sentido da unidade cristã e sinergia. Não compreendeu o amor ágape e o sentido da adoração. Não assimilou o significado da recente renovação litúrgica e do âmbito do comportamento, que deveria ser a maior revolução espiritual de grande sentido para a comunidade cristã, enaltecendo o sentido da adoração – a saber, o sentido da sinergia. Revolução que transformou os relacionamentos apenas no âmbito do sentimento, não avançando além, para o âmbito da vontade. O sentido filosófico contemporâneo da Igreja assim pode ser afirmado: uma das maiores realizações da filosofia para o Cristianismo será, exatamente, a capacidade de enxergar a recente revolução litúrgica, artística e relacional eclesial como algo verdadeiramente distante e antigo.

O fraternismo legou à pós-modernidade um novo sentido cultural, presente nas relações e na esfera da religião: uma nova era. Tal sentido fez com que o nome de cristão hoje só possa ter sentido através do profundo discernimento. Se, no Romantismo, a reação ao árido Iluminismo era a afirmação do individualismo e do sentimento, hoje a cultura neoromântica, em reação à desmoralização da ortodoxia, institui o egocentrismo e o predomínio das sensações. A santidade tornou-se um elemento exótico, inusitado e novo, mais do que o próprio culto à natureza e a reafirmação do deus-homem, através da exploração das energias e do olhar da entediante religião de superfície em relação ao Todo e ao Cosmos. A profundidade, está muito além do Tibete e da Índia, está na audácia mística de João da Cruz: estabelecer ousadamente a mística esponsal como o único alvo da vontade possível, levando a espiritualidade cristocêntrica a profundidades antes  inimaginadas, superando até mesmo Orígenes, Bernardo de Claraval, Teresa de Ávila, e as posteriores Teresa de Lisieux e Teresa de Calcutá. Se, para a mística de Calcutá, o maior assombro é a Noite Escura (1), a filosofia complexa e profunda de João da Cruz vai muito além, estabelecendo a noite de contemplação como apenas um estágio necessário para o desposório espiritual e a união mística divina, transcendente, não imanentista: o radical e apaixonado amor àquele que é a própria estrutura fundante do mundo, a doce preciosidade da Galileia. A mística cristã é um sonoro não ao imanentismo, a Hermes Trismegisto, à Cabala, ao Gnosticismo, a Pitágoras, a Platão, ao Neoplatonismo, a Amônio Sacas, a Plotino, a Proclo, a Jâmblico, a Dionísio Areopagita, à espiritualidade de um Mestre Eckhart, a Marsílio Ficino, a Pico della Mirandola, a Nicolau de Cusa, a Descartes, a Spinoza, a Leibniz, a Kant, a Fichte, a Schelling, a Hegel, ao Romantismo, a Helena Blavatsky, a Alice Bailey, a Eliphas Levi, a Aleister Crowley, a Rudolf Steiner, a Henri Bergson, a Alfred North Whitehead, a Mário Ferreira dos Santos, aos ambíguos G. K. Chesterton, J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. O estudioso da filosofia e mística cristã deverá, antes, garimpar as preciosidades de Orígenes, Agostinho, Anselmo, Tomás de Aquino, João Duns Scoto, Boaventura, Bernardo de Claraval, Catarina de Siena, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Teresa de Lisieux, Isabel da Trindade, Faustina Kowalska, Charles Spurgeon, David Livingstone, John Wesley, Charles Finney, Jonathan Edwards, Teresa de Calcutá, Martin Luther King, Irmã Dulce, Zilda Arns, Richard Swinburne, Alvin Plantinga e William Lane Craig. Cito, aqui, também espíritos práticos, mas deverão ser estimados, sobretudo, os teóricos e contemplativos (2). E, especialmente, devido ao seu caráter estrutural, sistemático e hagiograficamente radical, o suavíssimo João da Cruz.

Poderá, o leitor cético, questionar, desconfiado: como podem espíritos tão brilhantes como Plotino, Leibniz, Descartes, Kant e Hegel, clássicos do pensamento filosófico, ser descartados  pelo estudioso da filosofia mística cristã? A esses, dou minha resposta: o que é colocado em questão não é o brilhantismo do pensamento desses autores, mas a espécie de espiritualidade que eles seguiam, a qual pode parecer, ao leitor, interessante, mas se o mesmo for pesquisar mais a fundo, verá que não era cristã. O pensamento cristão difere do hermetismo e da teurgia, no sentido em que ele não atribui imanência ou emanação à divindade, mas a postula como uma soberana, infinita, pessoal e, especialmente, relacional Transcendência. O ponto mais importante para a filosofia mística contemporânea é nada menos do que uma profunda e responsável distinção entre Transcendência e Imanência. Na pós-modernidade, e para a posterior cultura neomedievalista, na qual o ateísmo sai de cena – deixando, porém, uma marca em nosso mundo, a saber, certa indefinição acerca da ideia de Deus –, a distinção essencial não mais será entre  ateísmo  e teísmo, mas entre Imanência e Transcendência.

O pensamento cristão também difere do hermetismo no sentido em que ele não é dúbio, ambíguo, obscuro ou fechado em si mesmo, mas se constitui como uma filosofia que é própria da grande cultura, permanecendo cristalina e aberta para o mundo.

Deverá, Aristóteles, ser preferido a Platão, devido ao rigor sistemático e ao caráter enxuto e monumental da filosofia aristotélica, e ao influente hermetismo da metafísica platônica. Os principais filósofos da modernidade, ademais, deverão ser profundamente estudados, e não seguidos.

Contudo, no período transitório do relativismo da pós-modernidade, prevalece a superficialidade e uma espiritualidade sem contornos, indefinida, espiritualidade líquida, na qual a profundidade – isto é, João da Cruz – ainda não foi plenamente instituída. E se, como já afirmei, o Neomedievalismo constituirá a era do discernimento, no qual o Cristianismo Mediano será superado – embora não para a maioria –, podemos dizer que ele será também uma era de coragem para os verdadeiros cristãos. Contudo, devido a essas ruínas, é preciso refundar, filosoficamente, o sentido de Igreja.

A caracterização da antropodulia, ou culto ao grupo, é o estabelecimento de uma falsa inteligência, eternamente distraída, a qual, vendo, não vê, ouvindo, não escuta, falando, não diz, tocando, não sente. O totem social eregido permanece, assim, um símbolo intocável que não mais possui condições de ser considerado a Igreja no sentido mais nobre instituído pelo período pré-renascentista; trata-se do fato de que não mais flui, em seu centro, o sentido místico que antes possuía, no qual deveria ter progredido, ao invés de regredido. A recente e impressionante revolução litúrgica não floresceu e permaneceu um sentido estéril de aparência de espiritualidade, jamais a realizando, por causa do secularismo e humanismo que são  inerentes ao protestantismo, possuindo profundas raízes na alquimia e no renascentismo, jamais realizando a sinergia mística, isto é, jamais avançando para além do pragmatismo. Institui uma falsa inteligência, isto é, uma teologia humanista e aparentemente intelectualista, mas vazia, sem o sentido místico-eclesial que se esperaria de um grupo verdadeiramente místico; é incapaz, assim, de enxergar a própria contradição que a originou – pois o princípio do protestantismo é a alquimia pragmática dos renascentistas – e não pode superar-se, para além disso, apesar dos Grandes Despertamentos e das recentes notáveis revoluções litúrgicas. Além disso, permanece também, o Catolicismo, como uma comunidade que parou no tempo, isto é, no medievalismo, mas de forma a atuar também humanista e protestanticamente, perdendo o seu original sentido místico-hagiográfico histórico; ora, se a Igreja perdeu o seu sentido místico – não estuda João da Cruz –, permanece incapaz de enxergar todas aquelas sutis artimanhas do hermetismo que se disseminou por toda a cultura antropocêntrica dos recentes tempos, de modo que a que hoje temos sustenta o sentimento de uma nova religião, a saber, o imanentismo.

Como a sinergia não pode ser instituída – não apenas por causa da ambiguidade institucional, mas também porque, no âmbito das relações mais singelas, as pessoas livremente decidiram e escolheram jamais viver, de forma absolutamente radical, o amor ágape –, o caminho da Igreja será, necessariamente, a solidão mística de pouquíssimos  que, geograficamente distantes, realizarão verdadeiramente a coragem, a fortaleza, o discernimento e a vontade, discernindo intenções, enfrentando o aión e realizando a escolha distantes da ambiguidade instituída, jorrando sentido à própria cultura, opondo-se ao imanentismo e à coesão aparente de superfície. A senda que se opõe ao naufrágio do Cristianismo Mediano e institucional é o caminho de João da Cruz e a solidão dos místicos que, distantes de uma aparência de verdade que não subsiste, realizam a vocação filosófica-mística, conhecendo a cultura, estudando princípios e realizando a filosofia mística neojuaniana. O caminho para a verdadeira vida mística é o sistema proposto por João da Cruz, que é um caminho de Transcendência, o qual se opõe ao imanentismo instaurado O caminho filosófico de João da Cruz é o do discernimento puro.

O sentido da Igreja deixa de ser frequentar uma instituição, e passa a ser a mística profunda. Um caminho de solitude necessária, pois é certo que o caminho institucional passará a ser, nas próximas décadas, algo não plenamente definido e muito parecido com uma comunidade cristã. Passarão, os místicos, ao largo da sonora espiritualidade líquida; refugiar-se-ão em seu silêncio, isto é, a fortaleza do discernimento. É necessário estudar profundamente aquele que é  a pérola do Carmelo e a História da  Filosofia da cultura ocidental; a teologia da modernidade não oferece um caminho vasto e cristalino para a intrépida atitude hagiográfica, não estabelece a transparência necessária para o desprendimento do sentido  humanista pseudocrístão, não institui o desejável caminho da mística relacional Transcendente. É necessário discernir a verdadeira espiritualidade como um sentido não romântico imanentista, mas como uma fruição pessoal amorosa entre a amada, o místico, e o Amante, o Verbo, e como o sentido da intrépida força da amável joia do Carmelo.

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1. A noite escura de Teresa de Calcutá é relatada detalhadamente em KOLODIEJCHUK, B., Madre Teresa – venha, seja a minha luz (Thomas Nelson Brasil, Rio de Janeiro, 2008).

2. A filosofia é, essencialmente, contemplação e teoria, e é nesse sentido que deve, primeiramente, ser posta, a Mística.

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