SÉTIMA PARTE. ADORAÇÃO, NEODULIA, COESÃO E SENTIDO
Se, dentre todos os movimentos humanistas, o de 1517 foi o mais emblemático, no sentido de quebrar certo sentido de cultura, dentro de um contexto de progressão alquímica pragmática-histórica, isto é, trazendo à tona um suposto novo mundo, através de um programa que, por seus próprios meios, se instalará de forma necessariamente invisível e progressiva, também é verdade que não logrou, tal programa, efeitos tão vastos como o esperado, permanecendo, o posterior avivamento evangelicalista, o Grande Despertamento, e todo o sentido da adoração contemporânea algo profundamente cristão, semelhante ao espírito da Idade Média, de forma que os constantes empecilhos que são hoje inerentes à Igreja estão cheios de enfado e trabalho, pois é algo não tão fácil quanto o aparente navegar contra o sentido da grande cultura. Se dissemos que o sentido da adoração hoje é, em grande parte, antropodúlico, isto é, constitui o que podemos denominar o espírito de camaradagem de superfície, também é notório que existe algo como adoração, isto é, um espírito contemporâneo e novo, de grande arte e beleza, que, sendo beleza e arte, longe de cumprir o mais antigo programa romântico, institui o verdadeiro sentido contagiante de unidade, isto é, fixando o olhar em direção ao transcendente, produz coesão, institui algo parecido com comunidade, deseja verdadeiros relacionamentos. Contudo, é nesse ponto, especificamente, que as coisas se misturam.
A adoração, que existe, e a coesão, que é iniciada, transformam-se, com o passar do tempo, em momentos que se liquidificam. O que existe é, antes de tudo, um movimento de adoração e coesão, isto é, movimentos de espiritualidade que operam, contudo, sem discernimento. Inexiste uma ciência do relacionamento. Desconhecem-se os movimentos da contracultura. Desse modo, uma espiritualidade que é carente de uma teoria sólida e contemporânea busca algo que parece ser uma unidade difusa, ou momentos que escapam. Contudo, é a teoria neomedievalista justamente aquela que dará fim ao período da pós-modernidade, iniciando o período ao qual denomino Neomedievalismo. Isto é, dará fim à era da superficialidade, inaugurando a era dos relacionamentos.
Subjaz, na experiência propriamente macrocultural, quatro elementos, entrelaçados, a saber: adoração, neodulia, coesão e sentido.
A adoração, no sentido cristão, consiste em uma marcha histórica que a Igreja progressivamente desenvolve até se tornar a exteriorização de um amor individual manifestado em um sentido pleno de comunidade. Destarte, aquela santidade que outrora se manifestava individualmente no silêncio dos mosteiros vem a se tornar, no significado contemporâneo de adoração, em movimento espontâneo de sinergia e unidade. É, a revolução litúrgica protestante evangelicalista, a redenção de uma desconstrução histórica, e o sentido verdadeiramente neomedievalista que, se guiado por uma teoria sólida de espiritualidade, irá abalar as estruturas de todos os relacionamentos da cultura do ocidente.
É, a adoração, que inexiste na ideologia neoromântica, pois é movimento que se eleva em direção à transcendência, aquilo que produz sentido e coesão, através de um outro olhar ao humano, no qual se caracteriza a neodulia. Se, na Idade Média, cultuava-se os santos como ícones demasiadamente distantes, e na modernidade permanecem, os místicos, também apartados, mas subestimados e não queridos, será justamente a cultura neomedievalista aquela na qual haverá um outro olhar em direção à santidade e ao humano. O sentido de adoração será o de pessoas que, antes distantes, em diferentes comunidades, agora se enxergarão próximas e pertencentes a uma mesma grande comunidade, não através de um espírito de unidade de superfície que tende à difusão, mas de um outro sentido, recém-encontrado: o de ser, a grande cultura cristã do ocidente, aquela que subsiste especificamente no que a subjaz, isto é, o mistério cristológico que unifica a todos que, entrelaçados em uma mesma mística, descobrirão de maneira absolutamente coesa e próxima, no outro – isto é, no humano –, o verdadeiro sentido da santidade, e que se oporá à espiritualidade líquida neoromântica, trazendo à tona, dentro da cultura, o sentido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário