SEXTA PARTE. ANTROPOLATRIA, ANTROPODULIA, AMBIGUIDADE E NÃO-SENTIDO
Constituem, as constantes transformações dos tempos, algo que requer, por parte do pensamento, não somente a esperada renovação da linguagem, mas também o surgimento de novos termos. Sendo, uma cultura de longa duração, aquilo que acumula tensão, expectativas e pluralidade de pensamentos, entrelaçados de maneira complexa em uma intrincada teia, a ditar a dança constante das marionetes, é necessária certa filosofia da história e da cultura que reorganize o pensamento, apontando novos rumos, e que inspire novas gerações, fundadas agora em esteios mais seguros, podendo conhecer, além do olhar tradicionalista e institucional, uma estrutura fundante e mantenedora do oikoumene, a guiar, dirigir e inspirar a História sob o mesmo olhar que contemplou as doces águas tranquilas da Galileia. O pensamento cristológico não é a filosofia das instituições, mas o pensamento fundante do próprio mundo, o qual revela, através de fartas evidências históricas, o impacto da cristologia que constitui fundamentos os quais não foram, pela insurreição iluminista, e também romântica, abalados.
É assim, a frágil espiritualidade neoromântica, aquela que dá origem a esses quatro elementos, entrelaçados, a saber: antropolatria, antropodulia, ambiguidade e não-sentido.
Inexiste, na filosofia de tipo neoagiana, o que denomino pressuposto ontológico do relacionamento. Sendo, na filosofia propriamente neomedievalista, o que confere sentido às relações um Deus pessoal, transcendente, relacional e amoroso, na espiritualidade de tipo mais superficial o conceito de divindade jamais é claramente definido, e tampouco a ideia de adoração, isto é, de alguém que presta culto e se rende diante daquele que transcende em bondade, misericórdia e beleza a criação, concedendo pleno sentido à mesma, e que interage com o humano; tal ideia não pode ser estabelecida, voltando-se, então, a imagem de culto ao próprio homem, constituindo, assim, a antropolatria, a qual é própria de uma espiritualidade que, sendo pós-moderna, possui raízes em determinado modernismo pragmatista histórico.
Vemos surgir, assim, na ideologia antropólatra, um movimento de ingenuidade sem precedentes: se o homem está unificado com a natureza, se a divindade é fluida e esparsa, se o princípio divino é imanente e confunde-se com o próprio homem, a consequência natural é que ele poderá, a partir de então, ser adorado, o que sem dúvida constituirá uma espiritualidade das menos inteligentes possíveis, pois é atitude menos prudente e razoável imaginável cultuar o próprio homem. O culto e o fascínio pela natureza, pelo exótico e pelo sentimento romântico subjetivista é, em última instância, o culto ao próprio homem, o exílio de toda espiritualidade cristã relacional inteligente, de um Orígenes e de uma Teresa de Lisieux, é o naufrágio de todo o sentido da grande cultura e a ideologia que jamais poderá subsistir, quando confrontada com os princípios sólidos, estruturais e arquitetônicos dessa Filosofia Mística, a qual é o olhar inteligente para aquilo que os verdadeiros grandes místicos construíram através dos séculos.
Se a antropolatria é o culto incessante ao próprio homem, é, a antropodulia, uma relação horizontal, e não vertical, como aquela, em direção aos propósitos pragmatistas de uma era que, não inaugurando algo novo – embora ecoe ingenuamente a trombeta de uma falsa aurora –, introduz o que denomino ditadura do hedonismo e do entretenimento, onde o espírito de jovialidade que permeia os relacionamentos parece instituir comunidades, mas institui tribos. A antropolatria introduz a adoração a um outro, enquanto a antropodulia inaugura uma adoração a um grupo, no qual aquele que adora também está inserido. Porém, não é adoração em sentido estrito, pois essa, por definição, só pode ser em relação ao transcendente. Constitui, então, o espírito da falsa adoração pós-moderna, a atmosfera da ambiguidade e do não-sentido.
É, a espiritualidade líquida contemporânea, o entreter-se contínuo, a grande expectativa em relação ao sensível e o esquecer-se do humano. Porém, é extremamente difícil de ser discernida porque, como já afirmei, a espiritualidade que é própria da grande cultura também lida continuamente com o sensível, se a definirmos como uma cultura de santidade que se desprende dos mosteiros para se tornar agora cultura cosmopolita e verdadeiros relacionamentos. Nesse sentido, para distinguir entre as duas espécies de espiritualidade não basta definir alguns poucos conceitos. É necessário construir uma nova teoria de espiritualidade – que, sendo nova, possui raízes na própria cultura. A saber, a verdadeira Filosofia Mística.
Sendo, a antropodulia, o culto ao grupo, a antropolatria é o culto a um outro, relação vertical a um que aparenta ser um pacificador, isto é, alguém de quem muito se espera, e que pelas suas muitas habilidades institui o culto ao humano, pois, sendo quem vem em nome de si mesmo, parece instituir algo novo; é, porém, a religião que se volta contra o espírito que é próprio da grande cultura. No seio da grande cultura, encontrar-se-á a verdadeira espiritualidade. O que aparenta ser o novo, sem o ser, é movimento de contracultura, e é falsa espiritualidade.
A caracterização da antropodulia, ou culto ao grupo, é o estabelecimento de uma falsa inteligência, eternamente distraída, a qual, vendo, não vê, ouvindo, não escuta, falando, não diz, tocando, não sente. O espírito renascentista que, dizendo adorar, não adora, constitui a adoração hipnótica que, cegamente guiada, mas sem guia, estabelece relacionamentos frágeis e ambíguos, e que por não ser adoração em relação à transcendência, mas difusa, se perde em sua própria imanência – carente de fundamentos sólidos –, e se torna, então, não-sentido.
FIM DA SEXTA PARTE
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