PRIMEIRA PARTE. O SENTIDO DE GRANDE
COMUNIDADE NA CULTURA OCIDENTAL CRISTÃ
Após as três grandes exposições que
fiz sobre o sentido da Igreja, recentemente – embora nem tanto, pois a
cultura pós-moderna é uma cultura que avança rapidamente, mesmo que, na maioria
das vezes, imperceptivelmente –, faço agora essas exposições filosóficas
tratando de um tema de grande interesse a todo aquele que se debruça
atenciosamente sobre o pensamento, dessa vez em escrito, e divididas em partes,
trazendo à tona, dentro da História,
finalmente, o tema do Neomedievalismo.
Entender o que é o espírito do
Neomedievalismo será o mesmo que compreender os destinos de nossa cultura, que é embebida de
espírito cristão, mas que, desde os movimentos humanistas históricos, especialmente
o de 1517, tornou em fragmentos o sentimento de unidade até então vigente, embora
não tenha tornado os seus seguidores, por causa disso, menos cristãos, pois a
essência do protestantismo é algo que transcende os próprios movimentos humanistas
históricos, que apenas se servem de ocasiões e ocasiões, entender o que é o
espírito do Neomedievalismo será o mesmo que decifrar o sentido daquilo que
dará fim ao período denominado, entre nós ocidentais, pós-modernidade.
Contudo, não será tão fácil erigi-lo, e
nem tão fácil entendê-lo, de modo que será necessária a construção paulatina e
progressiva de um grande pensamento.
O sentimento ateísta, na cultura
ocidental, o qual vem sendo substituído progressivamente por um renovado
interesse pela religião, notadamente pelas religiões orientais, legou à cultura
não uma desconstrução de uma espiritualidade, mas a desconstrução de um
sentimento de unidade que prevalecia na grande cultura da hagiografia e dos
mosteiros. Contudo, após o recente esfacelamento do sentimento ateísta, o que
outrora era o monacato, em termos de espiritualidade, hoje se tornou o
sentimento de uma grande cultura, ou de uma grande comunidade, de modo que
falar de cultura ocidental cristã em termos de pequenas comunidades hoje perdeu
o sentido. A cultura ocidental cristã sobreviverá se ela se entender hoje como uma grande
comunidade fundamentada em elementos de unidade cristã aos quais denomino Neomedievalismo.
Desse modo, o sentimento cristão de
unidade não será tanto um pluralismo religioso panteísta, pois tal elemento
levaria inevitavelmente não a uma unidade, mas a uma dissolução, mas uma coesão
nova fundamentada no que em Filosofia Mística denomino estruturalismo
cristológico, que é a redenção de uma dissolução histórica do sentimento de
unidade cristã. Contudo, paralelamente a esse sentimento de unidade, haverá
também um outro, identificado com todas as vertentes de dissolução histórica,
ao qual podemos denominar fraternista.
“Por que fraternista?”, questionará o
leitor. O motivo é histórico: trata-se de uma construção fundamentada em outros
princípios de coesão, diferentes do que denominamos estruturalismo cristológico,
que é o sentimento de uma fraternidade que tem como princípios a instituição de
uma progressão histórica necessariamente humanista, e de uma espiritualidade rasa e líquida. O estruturalismo cristológico,
que aqui fundamentamos, possui um fundamento diferente. É como se fosse uma
pedra, uma base firme que na unidade cristã não será rejeitada. Uma pedra
diferente, muito mais firme do que a que seria utilizada, por exemplo, por
construtores. Trata-se, obviamente, de uma analogia muito simples com
profissões do cotidiano, como a de um trabalhador de uma construção, ou da carpintaria.
Se falo de construções, falo essencialmente de pensamentos, e o pensamento aqui estabelecido vem
construir o que podemos denominar comunidade e sentido. Pois é certo que não é na
multiplicação dos ajuntamentos em separado que se constrói uma comunidade, onde
se busca uma coesão que nunca se alcança, e nem o poderia, pois o que há é
antes a ilusão de uma unidade que não existe, ilusão que subsiste em um sentimento
de coesão, diferente de vontade, que logo se desmorona como areia. A
unidade far-se-á em nossa cultura não tanto através de comunidades isoladas que
caminham rumo ao desmoronamento certo, mas em uma unidade em comum que subsiste
no próprio mundo, mundo esse que é a própria grande cultura ocidental cristã,
impregnada de sentimento cristão, o qual subsiste, embora como que de forma
invisível.
Dessa forma, o verdadeiro sentimento de unidade não será o olhar para o lado e ver em um banco o irmão, mas o olhar para a rua e enxergar o humano, de modo que amizades inesperadas podem ser construídas com quem há algum tempo julgava-se do outro lado do muro. Amizades entre pessoas de uma mesma grande cultura, cuja unidade se dará através de um conhecimento aberto para o mundo, o qual subsiste em um estruturalismo que é cristológico.
Contudo, para que tal sentimento seja construído, é preciso estruturar um pensamento complexo, a um só tempo filosófico e místico. É preciso enxergar além dos muros a partir daquilo que nos sussurra o grande pensamento de João da Cruz:
Dessa forma, o verdadeiro sentimento de unidade não será o olhar para o lado e ver em um banco o irmão, mas o olhar para a rua e enxergar o humano, de modo que amizades inesperadas podem ser construídas com quem há algum tempo julgava-se do outro lado do muro. Amizades entre pessoas de uma mesma grande cultura, cuja unidade se dará através de um conhecimento aberto para o mundo, o qual subsiste em um estruturalismo que é cristológico.
Contudo, para que tal sentimento seja construído, é preciso estruturar um pensamento complexo, a um só tempo filosófico e místico. É preciso enxergar além dos muros a partir daquilo que nos sussurra o grande pensamento de João da Cruz:
“porque o mesmo amor três têm,
e sua essência se dizia:
que o amor quanto mais uno,
tanto mais amor fazia". (1)
FIM DA PRIMEIRA PARTE
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(1) CRUZ, João da, Romances trinitários
e cristológicos, Romance n°. 1.
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