sexta-feira, 7 de junho de 2019

Neomedievalismo. Primeira Parte


PRIMEIRA PARTE. O SENTIDO DE GRANDE COMUNIDADE NA CULTURA OCIDENTAL CRISTÃ


Após as três grandes exposições que fiz sobre o sentido da Igreja, recentemente – embora nem tanto, pois a cultura pós-moderna é uma cultura que avança rapidamente, mesmo que, na maioria das vezes, imperceptivelmente –, faço agora essas exposições filosóficas tratando de um tema de grande interesse a todo aquele que se debruça atenciosamente sobre o pensamento, dessa vez em escrito, e divididas em partes, trazendo à  tona, dentro da História, finalmente, o tema do Neomedievalismo.

Entender o que é o espírito do Neomedievalismo será o mesmo que compreender  os destinos de nossa cultura, que é embebida de espírito cristão, mas que, desde os movimentos humanistas históricos, especialmente o de 1517, tornou em fragmentos o sentimento de unidade até então vigente, embora não tenha tornado os seus seguidores, por causa disso, menos cristãos, pois a essência do protestantismo é algo que transcende os próprios movimentos humanistas históricos, que apenas se servem de ocasiões e ocasiões, entender o que é o espírito do Neomedievalismo será o mesmo que decifrar o sentido daquilo que dará fim ao período denominado, entre nós ocidentais, pós-modernidade.

Contudo, não será tão fácil erigi-lo, e nem tão fácil entendê-lo, de modo que será necessária a construção paulatina e progressiva de um grande pensamento.

O sentimento ateísta, na cultura ocidental, o qual vem sendo substituído progressivamente por um renovado interesse pela religião, notadamente pelas religiões orientais, legou à cultura não uma desconstrução de uma espiritualidade, mas a desconstrução de um sentimento de unidade que prevalecia na grande cultura da hagiografia e dos mosteiros. Contudo, após o recente esfacelamento do sentimento ateísta, o que outrora era o monacato, em termos de espiritualidade, hoje se tornou o sentimento de uma grande cultura, ou de uma grande comunidade, de modo que falar de cultura ocidental cristã em termos de pequenas comunidades hoje perdeu o sentido. A cultura ocidental cristã sobreviverá se ela se entender hoje como uma grande comunidade fundamentada em elementos de unidade cristã aos quais denomino Neomedievalismo.

Desse modo, o sentimento cristão de unidade não será tanto um pluralismo religioso panteísta, pois tal elemento levaria inevitavelmente não a uma unidade, mas a uma dissolução, mas uma coesão nova fundamentada no que em Filosofia Mística denomino estruturalismo cristológico, que é a redenção de uma dissolução histórica do sentimento de unidade cristã. Contudo, paralelamente a esse sentimento de unidade, haverá também um outro, identificado com todas as vertentes de dissolução histórica, ao qual podemos denominar fraternista.

“Por que fraternista?”, questionará o leitor. O motivo é histórico: trata-se de uma construção fundamentada em outros princípios de coesão, diferentes do que denominamos estruturalismo cristológico, que é o sentimento de uma fraternidade que tem como princípios a instituição de uma progressão histórica necessariamente humanista, e de uma espiritualidade rasa e líquida. O estruturalismo cristológico, que aqui fundamentamos, possui um fundamento diferente. É como se fosse uma pedra, uma base firme que na unidade cristã não será rejeitada. Uma pedra diferente, muito mais firme do que a que seria utilizada, por exemplo, por construtores. Trata-se, obviamente, de uma analogia muito simples com profissões do cotidiano, como a de um trabalhador de uma construção, ou da carpintaria.

Se falo de construções, falo essencialmente de pensamentos, e o pensamento aqui estabelecido vem construir o que podemos denominar comunidade e sentido. Pois é certo que não é na multiplicação dos ajuntamentos em separado que se constrói uma comunidade, onde se busca uma coesão que nunca se alcança, e nem o poderia, pois o que há é antes a ilusão de uma unidade que não existe, ilusão que subsiste em um sentimento de coesão, diferente de vontade, que logo se desmorona como areia. A unidade far-se-á em nossa cultura não tanto através de comunidades isoladas que caminham rumo ao desmoronamento certo, mas em uma unidade em comum que subsiste no próprio mundo, mundo esse que é a própria grande cultura ocidental cristã, impregnada de sentimento cristão, o qual subsiste, embora como que de forma invisível. 

Dessa forma, o verdadeiro sentimento de unidade não será o olhar para o lado e ver em um banco o irmão, mas o olhar para a rua e enxergar o humano, de modo que amizades inesperadas podem ser construídas com quem há algum tempo julgava-se do outro lado do muro. Amizades entre pessoas de uma mesma grande cultura, cuja unidade se dará através de um conhecimento aberto para o mundo, o qual subsiste em um estruturalismo que é cristológico. 

Contudo, para que tal sentimento seja construído, é preciso estruturar um pensamento complexo, a um só tempo filosófico e místico. É preciso enxergar além dos muros a partir daquilo que nos sussurra o grande pensamento de João da Cruz:


“porque o mesmo amor três têm,
e sua essência se dizia:
que o amor quanto mais uno,
tanto mais amor fazia". (1)


FIM DA PRIMEIRA PARTE

_______________
(1) CRUZ, João da, Romances trinitários e cristológicos, Romance n°. 1.

Nenhum comentário:

Postar um comentário