TERCEIRA PARTE. O RELACIONAMENTO E O SEU PRESSUPOSTO ONTOLÓGICO
Talvez possa parecer ao leitor algo pouco emocionante, em termos filosóficos, tratar de relacionamentos. Se isso ocorre, pode ser por três motivos muito distintos. Primeiro: não está muito atento ao que são realmente os grandes movimentos de nossa cultura, e ao modo como eles deságuam no caldo cultural do ocidente, estabelecendo pensamentos e relações. Segundo: desconfia que é um tema mais interessante para a sociologia do que para a filosofia, e nesse ponto eu afirmaria não possuir uma visão tão delimitada acerca das ciências humanas, e vejo a filosofia como o pensamento estruturante e abrangente que alcança, metodica e extensivamente, territórios muito mais vastos do que qualquer outra ciência. Terceiro: não tem como perspectiva o pressuposto ontológico do relacionamento.
Ater-me-ei ao terceiro ponto.
Considero, em filosofia, a partir do pressuposto ontológico, o relacionamento. Pois, se as relações não são mais do que meras convenções pragmáticas e artificiais estabelecidas por primatas avançados para fins de sobrevivência, podemos considerar natural o atual estado de coisas, isto é, a fragmentação de todo o sentido das relações pós-modernas. Porém, se, mesmo que tenhamos evoluído, existe um fundamento estruturante e ontológico que precede toda a cadeia de evoluções, se existe um sentido universal e necessário que antecede toda a multiplicidade, e se há um elemento teleológico dado, pelo qual podemos guiar as relações, então essa nova objetividade dará um outro significado ao intercâmbio entre os seres, e a teoria neomedievalista fará total sentido.
A modernidade produziu a bomba atômica, duas guerras mundiais e a guerra fria, mas o espírito da Idade Média é que é temido. O espírito moderno, mesmo tendo sido recentemente desmoronado, parece ainda terreno seguro. O motivo é certo recorte historiográfico e determinada propaganda massiva mantida em um mundo onde a atmosfera renascentista permanece onipresente em todo o mundo ocidental cristão. Quando o protestantantismo desconstrói o catolicismo, ele não está se apropriando, especificamente, do seu destino histórico. O papel do protestantismo dentro da cultura cristã não é a desconstrução da História, mas a inspiração a uma unidade que será neolitúrgica. O evangelicalismo protestante e a sua renovação da liturgia, o Grande Despertamento, o espírito da nova arte sacra e os conteúdos da adoração constituirão, especificamente, os destinos e o caminho histórico que se darão em uma comunidade não mais fechada em si mesma, mas que se abre para o mundo. O espírito do neomedievalismo é aquilo que realiza o pressuposto ontológico que precede a multiplicidade das relações, que é o único que poderá se contrapor à insurreição de um neoromantismo fugaz e fluido, pois é relação concreta com o humano, através de uma grande abertura e do esvaziamento daquilo que eram, há pouco tempo, comunidades fechadas e conduzidas por lideranças ambíguas, e também a ambiguidade superficial de todas as relações.
Somente entendendo os relacionamentos como momentos vinculados àquilo que é a própria estrutura do mundo, e através de um olhar neomedievo, no qual os destinos de uma grande comunidade constituem, necessariamente, a transformação do âmbito das relações a partir de um pressuposto transcendente e ontológico, compreender-se-á o que é o espírito do neomedievalismo, e as transformações culturais que se darão, brevemente, em nossa cultura.
FIM DA TERCEIRA PARTE
Nenhum comentário:
Postar um comentário