quinta-feira, 27 de junho de 2019

Neomedievalismo. Quarta Parte

QUARTA PARTE. DA NECESSIDADE DE UMA DISTINÇÃO DO PROFUNDAMENTE DISTINTO E  JÁ ABSURDAMENTE SEMELHANTE 


Decifrar a cultura cristã é algo extremamente difícil  e que requer um pensamento complexo e atento às várias nuances culturais que operam em uma ensurdecedora mistura de ruídos e de pensamentos que se entrelaçam e se confundem, de modo a requerer um olhar não apenas filosófico, mas também místico-contemplativo. A era da multiplicidade requer um olhar silencioso e a capacidade de  selecionar informações e estabelecer um pensamento que seja não apenas erudito, mas também profundo e complexo. É necessário não apenas perspicácia, mas também criatividade e imaginação, aliada a uma certa curiosidade necessária e um fio condutor que perpasse toda a história do pensamento, a qual se tornou menos criativa no século XX, afastando da filosofia o seu aspecto mais estruturante e próprio: o metafísico.

O mundo de hoje é extremamente complexo e muito diferente do mundo antigo porque acumulou tensão, e pensamentos difíceis de serem discernidos. A ideia de Deus tem sido debatida em toda a história da filosofia, gerando acúmulo de tensão e a falta de certeza tanto para o defensor da metafísica quanto para o cético, tendo a recente ciência não mais buscado um conhecimento certo, universal, apodítico e necessário, mas baseado em sensações. A incerteza pós-moderna é o universo da ambiguidade do pensamento, porém, não apenas em seus aspectos teóricos, mas, também, das relações.

Todo relacionamento compreende o sentimento e, acima de tudo, a vontade, mas depende também do entendimento. Se o pensamento de uma cultura é fragmentado e ambíguo, também o serão as relações. Na realidade, certa espiritualidade mais superficial tem insurgido não hoje, mas desde algumas décadas, porém é nesse momento que, podemos dizer, alcançou o seu mais alto fim e ápice: a ambiguidade absoluta.

Quem hoje é, realmente, o cristão? Não mais sabemos. Sua figura tornou-se ambígua. Discerni-lo tornou-se impossível, de modo que hoje a imagem do cristão tornou-se indistinguível da imagem do praticante de uma  espiritualidade fluida. O mesmo ocorre em relação a lideranças. Confissões e rituais públicos tornaram-se insuficientes. De algum modo, será possível reconhecê-lo, mas para isso será necessário o estudo da Filosofia Mística, que é, exatamente, a que aqui é exposta.

O estabelecimento do neomedievalismo é, exatamente, o horizonte da radicalidade no universo da superficialidade, onde a Filosofia Mística, sendo conhecida, apontará o caminho filosófico-místico necessário em um mundo que testemunhou o recente desmoronamento do ateísmo e a ambiguidade das relações, e deseja encontrar o seu caminho. É, a Filosofia Mística, um caminho de construção da grande cultura, definindo conceitos, delimitando pensamentos, discernindo relacionamentos e estabelecendo, de forma concreta, determinado estruturalismo que nesse momento histórico se demonstrará, em um só tempo, absoluto, místico, transcendente e humano.


FIM DA QUARTA PARTE 

Neomedievalismo. Terceira Parte


TERCEIRA PARTE. O RELACIONAMENTO E O SEU PRESSUPOSTO ONTOLÓGICO 


Talvez possa parecer ao leitor algo pouco emocionante, em termos filosóficos, tratar de relacionamentos. Se isso ocorre, pode ser por três motivos muito distintos. Primeiro: não está muito atento ao que são realmente os grandes movimentos de nossa cultura, e ao modo como eles deságuam no caldo cultural do ocidente, estabelecendo pensamentos e relações. Segundo: desconfia que é um tema mais interessante para a sociologia do que para a filosofia, e nesse ponto eu afirmaria não possuir uma visão tão delimitada acerca das ciências humanas, e vejo a filosofia como o pensamento estruturante e abrangente que alcança, metodica e extensivamente, territórios muito mais vastos do que qualquer outra ciência. Terceiro: não tem como perspectiva o pressuposto ontológico do relacionamento.

Ater-me-ei ao terceiro ponto.

Considero, em filosofia, a partir do pressuposto ontológico, o relacionamento. Pois, se as relações não são mais do que meras convenções pragmáticas e artificiais estabelecidas por primatas avançados para fins de sobrevivência, podemos considerar natural o atual estado de coisas, isto é, a fragmentação de todo o sentido das relações pós-modernas. Porém, se, mesmo que tenhamos evoluído, existe um fundamento estruturante e ontológico que precede toda a cadeia de evoluções, se existe um sentido universal e necessário que antecede toda a multiplicidade, e se há um elemento teleológico dado, pelo qual podemos guiar as relações, então essa nova objetividade dará um outro significado ao intercâmbio entre os seres, e a teoria neomedievalista fará total sentido.

A modernidade produziu a bomba atômica, duas guerras mundiais e a guerra fria, mas o espírito da Idade Média é que é temido. O espírito moderno, mesmo tendo sido recentemente desmoronado, parece ainda terreno seguro. O motivo é certo recorte historiográfico e determinada propaganda massiva mantida em um mundo onde a atmosfera renascentista permanece onipresente em todo o mundo ocidental cristão. Quando o protestantantismo desconstrói o catolicismo, ele não está se apropriando, especificamente, do seu destino histórico. O papel do protestantismo dentro da cultura cristã não é a desconstrução da História, mas a inspiração a uma unidade que será neolitúrgica. O evangelicalismo protestante e a sua renovação da liturgia, o Grande Despertamento, o espírito da nova arte sacra e os conteúdos da adoração constituirão, especificamente, os destinos e o caminho histórico que se darão em uma comunidade não mais fechada em si mesma, mas que se abre para o mundo. O espírito do neomedievalismo é aquilo que realiza o pressuposto ontológico que precede a multiplicidade das relações, que é o único que poderá se contrapor à insurreição de um neoromantismo fugaz e fluido, pois é relação concreta com o humano, através de uma grande abertura e do esvaziamento daquilo que eram, há pouco tempo, comunidades fechadas e conduzidas por lideranças ambíguas, e também a ambiguidade superficial de todas as relações. 

Somente entendendo os relacionamentos como momentos vinculados àquilo que é a própria estrutura do mundo, e através de um olhar neomedievo, no qual os destinos de uma grande comunidade constituem, necessariamente, a transformação do âmbito das relações a partir de um pressuposto transcendente e ontológico, compreender-se-á o que é o espírito do neomedievalismo, e as transformações culturais que se darão, brevemente, em nossa cultura.


FIM DA TERCEIRA PARTE

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Neomedievalismo. Segunda Parte


SEGUNDA PARTE. DOIS MOVIMENTOS HISTÓRICOS DISTINTOS DE COESÃO DENTRO DA GRANDE CULTURA 


Falar sobre coesão e sentimento de unidade em nossa cultura não é tratar de algo novo. Poderíamos perguntar: existe algo como uma grande cultura no oriente? Se há, permanece algo muito diferente do que subsiste entre nós, ocidentais. Contudo, o fato é que entre nós tal existe, ou, mais do que isto, o que há entre nós é uma certa tradição e uma grande memória. E, se quisermos ir mais fundo, além dos estereótipos desgastados que emprestam à Idade Média nada mais do que uma reconstrução modernista – pois é certo que tal período foi desfigurado pelas historiografias correntes da modernidade, sendo essa, em sua essência, o humanismo pragmático progressista que deságua no leito da instituição líquida pós-moderna –, deveremos reconhecer que pouco se sabe sobre esse momento histórico. O que existe é um sentimento de coesão nítida, e se eu perguntasse qual é a origem desse sentimento que une, de modo distinto de qualquer outro lugar e período histórico, vidas tão díspares e povos tão diferentes, dir-me-iam: o dogma. Contudo, eu afirmaria que essa resposta é insuficiente.

Ainda que fosse o dogma, tal não consistiria o maior problema, pois existem de variados tipos, e não apenas ritualísticos e religiosos, mas a ideia que se coloca é que o que causou tal coesão e sentimento de unidade foi um elemento que está para além do dogmatismo, isto é, certo estruturalismo, pré-cismático, ou estrutura de pensamento, ao qual denominamos, em Filosofia Mística, estruturalismo cristológico. Porém não é pensamento em sentido modernista, tão somente, mas um fundamento ontológico que aqui entendemos como a própria estrutura do mundo, que a nossa cultura conheceu em vivas cores tal qual nenhuma outra, e ainda a vivencia, mas de maneira muito diferente hoje, após a sucessão de todos aqueles movimentos humanistas históricos, de modo que agora temos, na grande cultura, mais do que uma experiência, uma tradição e uma grande memória cristã. Desse modo, existe ainda uma experiência, mas que percorre como que de maneira subterrânea a  superfície de todas as rupturas renascentistas e  de todos os relacionamentos fluidos.

Entretanto, para entender em que consiste exatamente tal estruturalismo, é necessária certa sistematização rígida e certa construção teórica. Nessas exposições filosóficas, estou introduzindo, e não ainda fundamentando o pensamento. Elas são úteis para a introdução de um pensamento. Refiro-me, obviamente, não a outra coisa senão à Filosofia Mística.

O Neomedievalismo será, especificamente, o novo sentido de unidade da grande cultura que dará fim ao período transitório da pós-modernidade. 

Entretanto, nesse momento se constitui não mais apenas um grande sentimento de coesão, porém dois, um já em curso, e outro, o que agora se anuncia: o primeiro é uma união difusa, o segundo, o próprio sentido neomedievalista da grande cultura. O primeiro, o sentimento pragmatista de uma espiritualidade fluida. O segundo, aquilo que constitui o sentido mais radical e concreto do estruturalismo cristológico, e da sinergia contagiante e própria. O fim de todo princípio de ruptura e uma unidade não fluida, mas que se concretizará em verdadeiros relacionamentos.


FIM DA SEGUNDA PARTE

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Neomedievalismo. Primeira Parte


PRIMEIRA PARTE. O SENTIDO DE GRANDE COMUNIDADE NA CULTURA OCIDENTAL CRISTÃ


Após as três grandes exposições que fiz sobre o sentido da Igreja, recentemente – embora nem tanto, pois a cultura pós-moderna é uma cultura que avança rapidamente, mesmo que, na maioria das vezes, imperceptivelmente –, faço agora essas exposições filosóficas tratando de um tema de grande interesse a todo aquele que se debruça atenciosamente sobre o pensamento, dessa vez em escrito, e divididas em partes, trazendo à  tona, dentro da História, finalmente, o tema do Neomedievalismo.

Entender o que é o espírito do Neomedievalismo será o mesmo que compreender  os destinos de nossa cultura, que é embebida de espírito cristão, mas que, desde os movimentos humanistas históricos, especialmente o de 1517, tornou em fragmentos o sentimento de unidade até então vigente, embora não tenha tornado os seus seguidores, por causa disso, menos cristãos, pois a essência do protestantismo é algo que transcende os próprios movimentos humanistas históricos, que apenas se servem de ocasiões e ocasiões, entender o que é o espírito do Neomedievalismo será o mesmo que decifrar o sentido daquilo que dará fim ao período denominado, entre nós ocidentais, pós-modernidade.

Contudo, não será tão fácil erigi-lo, e nem tão fácil entendê-lo, de modo que será necessária a construção paulatina e progressiva de um grande pensamento.

O sentimento ateísta, na cultura ocidental, o qual vem sendo substituído progressivamente por um renovado interesse pela religião, notadamente pelas religiões orientais, legou à cultura não uma desconstrução de uma espiritualidade, mas a desconstrução de um sentimento de unidade que prevalecia na grande cultura da hagiografia e dos mosteiros. Contudo, após o recente esfacelamento do sentimento ateísta, o que outrora era o monacato, em termos de espiritualidade, hoje se tornou o sentimento de uma grande cultura, ou de uma grande comunidade, de modo que falar de cultura ocidental cristã em termos de pequenas comunidades hoje perdeu o sentido. A cultura ocidental cristã sobreviverá se ela se entender hoje como uma grande comunidade fundamentada em elementos de unidade cristã aos quais denomino Neomedievalismo.

Desse modo, o sentimento cristão de unidade não será tanto um pluralismo religioso panteísta, pois tal elemento levaria inevitavelmente não a uma unidade, mas a uma dissolução, mas uma coesão nova fundamentada no que em Filosofia Mística denomino estruturalismo cristológico, que é a redenção de uma dissolução histórica do sentimento de unidade cristã. Contudo, paralelamente a esse sentimento de unidade, haverá também um outro, identificado com todas as vertentes de dissolução histórica, ao qual podemos denominar fraternista.

“Por que fraternista?”, questionará o leitor. O motivo é histórico: trata-se de uma construção fundamentada em outros princípios de coesão, diferentes do que denominamos estruturalismo cristológico, que é o sentimento de uma fraternidade que tem como princípios a instituição de uma progressão histórica necessariamente humanista, e de uma espiritualidade rasa e líquida. O estruturalismo cristológico, que aqui fundamentamos, possui um fundamento diferente. É como se fosse uma pedra, uma base firme que na unidade cristã não será rejeitada. Uma pedra diferente, muito mais firme do que a que seria utilizada, por exemplo, por construtores. Trata-se, obviamente, de uma analogia muito simples com profissões do cotidiano, como a de um trabalhador de uma construção, ou da carpintaria.

Se falo de construções, falo essencialmente de pensamentos, e o pensamento aqui estabelecido vem construir o que podemos denominar comunidade e sentido. Pois é certo que não é na multiplicação dos ajuntamentos em separado que se constrói uma comunidade, onde se busca uma coesão que nunca se alcança, e nem o poderia, pois o que há é antes a ilusão de uma unidade que não existe, ilusão que subsiste em um sentimento de coesão, diferente de vontade, que logo se desmorona como areia. A unidade far-se-á em nossa cultura não tanto através de comunidades isoladas que caminham rumo ao desmoronamento certo, mas em uma unidade em comum que subsiste no próprio mundo, mundo esse que é a própria grande cultura ocidental cristã, impregnada de sentimento cristão, o qual subsiste, embora como que de forma invisível. 

Dessa forma, o verdadeiro sentimento de unidade não será o olhar para o lado e ver em um banco o irmão, mas o olhar para a rua e enxergar o humano, de modo que amizades inesperadas podem ser construídas com quem há algum tempo julgava-se do outro lado do muro. Amizades entre pessoas de uma mesma grande cultura, cuja unidade se dará através de um conhecimento aberto para o mundo, o qual subsiste em um estruturalismo que é cristológico. 

Contudo, para que tal sentimento seja construído, é preciso estruturar um pensamento complexo, a um só tempo filosófico e místico. É preciso enxergar além dos muros a partir daquilo que nos sussurra o grande pensamento de João da Cruz:


“porque o mesmo amor três têm,
e sua essência se dizia:
que o amor quanto mais uno,
tanto mais amor fazia". (1)


FIM DA PRIMEIRA PARTE

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(1) CRUZ, João da, Romances trinitários e cristológicos, Romance n°. 1.

domingo, 28 de abril de 2019

Três grandes exposições acerca do sentido da Igreja em nosso tempo

1. Filosofia Mística: Uma necessidade iminente para a Igreja

Trata do complexo conceito da vocação mística-filosófica, imprescindível para a Igreja em nosso tempo.


2. Filosofia da História da Igreja. O que é o Ecumenismo. O que é o Sectarismo. O que é igreja e o que não é

Trata da importância de definir, em termos filosóficos, aquilo que é a igreja, e da necessidade de abordar o ecumenismo em conjunto com o problema do sectarismo.


3. O espírito da Igreja: Compreendendo por que ela é um conhecimento aberto para o mundo

Trata da diferença específica entre um conhecimento fechado em si mesmo e o conhecimento específico da igreja, que é aberto para o mundo.

Define quem é o místico.

sábado, 5 de janeiro de 2019

A ineficácia das ideologias políticas tradicionais para a crise social pós-moderna

O sucesso em exprimir corretamente questões sociais, morais e políticas reside na arte e equilíbrio de interpretar situações complexas.

Em termos de sociologia, podemos dizer que a sociedade contemporânea tornou-se complexa demais para encaixar-se em rótulos fáceis ou em ideologias simplistas. Karl Marx e Friedrich Engels tornaram-se ultrapassados, mas o mesmo ocorreu com Adam Smith e o conceito liberal de mão invisível do mercado.

A guerra ideológica hodierna, contudo, não se faz mais na área econômica, mas no campo dos costumes e na arena ética. Um exemplo é o conceito de meritocracia, tópico perfeito para render discussões acaloradas e intermináveis. O que significa, exatamente, meritocracia? Ela se aplica a todos?

O mesmo vale para temas complexos como família, pluralismo, corrupção, liberalismo, relação entre igreja e estado, democracia, ditadura, tortura, a ideia do estado paternalista e provedor, e o messianismo, tema do culto à personalidade, que é, ao meu ver, o engano maior de todos. Vivemos em um sistema democrático, sustentado pelo equilíbrio dos três poderes, e não em uma monarquia, como na Arábia Saudita. Não estamos em uma sociedade absolutista (Absolutismo, um movimento histórico europeu que se consolida no séc. XVI e termina no séc. XIX). A democracia não depende apenas do poder executivo, mas também de instituições como o poder legislativo, o poder judiciário e também de outras instituições. A figura do executivo é apenas uma parte do sistema democrático. 

Portanto, da mesma maneira que escolhemos ideologias reducionistas e simplistas para tentar interpretar problemas sociais complexos, também escolhemos ídolos, construímos personagens e instituímos o culto à personalidade. Construímos reputações que não existem, defendemos atitudes que jamais deveriam ser defendidas e criamos situações nas quais o debate não é permitido. O debate aprofundado não é permitido. Apenas estereótipos de conceitos, simulacros de valores. Para alguns, a corrupção é o pior dos crimes. Para outros, o pior ataque é à liberdade e à igualdade social. Porém, jamais vi alguém denunciando os dois erros ao mesmo tempo. Ao contrário, o equilíbrio não existe, tampouco é permitido. Quem se identifica com o centro será taxado de petista e de fascista ao mesmo tempo, respectivamente, pelas torcidas contrárias. Não há o que ser feito. Trata-se de guerras de sentimentos, algo que está além da linguagem, onde a força dos argumentos não valem segundo as regras do jogo. Vivemos em um complexo cenário no qual há poucos comentaristas políticos que realmente enxergam além do maniqueísmo conceitual e do dualismo ideológico simplista, dentre os quais eu gostaria de destacar José Álvaro Moisés e Luiz Felipe Pondé.

Deveríamos compreender que é impossível sustentar a justiça social aplaudindo a corrupção, do mesmo modo que não se deve desejar o autoritarismo para impor valores que eu defendo, mas que devem ser trazidos à tona pela autoridade dos argumentos, e não pela imposição política.

Sócrates, Ghandi, Martin Luther King e Nelson Mandela defendiam valores estruturais, e conhecemos as armas das quais eles se serviram.

Deveríamos compreender que é errado o Cristianismo impor valores de forma política e não através da autoridade dos argumentos, do mesmo modo que é errado tentar desconstruir os valores cristãos e impor um niilismo moral e liberal disfarçado de pluralismo.

Deveríamos compreender que tanto o assalto ao erário (corrupção) quanto a tortura, fantasmas que assombram a história brasileira, são errados.

Deveríamos compreender que criticar um governo é radicalmente diferente de querer o mal do Brasil.

Deveríamos compreender que na democracia todos têm o direito de expor suas opiniões, e isso é um bem irrevogável

Deveríamos compreender que tanto o marxismo quanto o neoliberalismo são teorias que não respondem mais às demandas sociais da cultura pós-moderna.

Deveríamos compreender que Karl Marx era ateu, defensor do materialismo histórico e que seu pensamento é extremamente hostil à cultura cristã ocidental.

Deveríamos compreender que a democracia, nascida na Grécia Antiga, com Péricles, a qual era defendida até mesmo com o ostracismo, é um bem inegociável, e que a Constituição não deve ser ameaçada nem mesmo indiretamente, e que a repressão que assombra o nosso passado histórico não deveria ser sequer nomeada.

Deveríamos compreender que é impossível transformar uma nação sem priorizar a educação acima de todas as demais coisas.

Deveríamos, enfim, recuperar a nossa autoestima como brasileiros, e enxergar o que existe de melhor no Brasil. Tivemos, por exemplo, um combate à corrupção que seria inimaginável há dez anos atrás. Ser político e corrupto passou a ser perigoso e deixou de ser sinônimo de impunidade em nosso país. A Lava-Jato é uma operação sem precedentes no mundo, somente equiparada à Operação Mãos Limpas, na Itália.

Enfim, vivemos na era do pluralismo. Trata-se de uma ideologia que está presente em toda a sociedade, contra qual as armas políticas são ineficientes e inócuas. A resposta à era do pluralismo não se dará na área política, mas na arena do pensamento.

sábado, 8 de setembro de 2018

Vida acadêmica: da aridez e das consolações


1. A necessidade da inquietação e do engajamento acadêmico

Vivemos em um mundo diferente do mundo antigo. A contemporaneidade, com todas as suas complexidades, traz desafios novos. Refiro-me, especificamente, ao caráter cumulativo da História. É inevitável que, com o passar dos tempos, ideologias e conceitos se acumulem no caldo cultural da sociedade, trazendo necessidades cada vez mais complexas ao pensamento. Esse é um desafio para o filósofo cristão. É também um desafio para o cientista, para o pensador identificado com a cristandade.

Se eu fosse definir quais são as principais características da comunidade cristã atual, uma delas seria o que poderíamos denominar distração crônica. Há uma certa indolência e um torpor característico que permeia a comunidade cristã. Vivemos em uma época de complexos desafios, mas aqueles que se identificam com o cristianismo parecem, de alguma forma, absortos em suas próprias idiossincrasias, valorizando mais o entretenimento do que a cultura, mais a busca do próprio bem-estar do que o incômodo e a reflexão. Diante dos desafios que a comunidade cristã esperam, podemos perguntar: onde está o incômodo?

Pensar, refletir, é inquietar-se. É olhar com misericórdia para os problemas do mundo, é sentir-se desafiado a responder às principais questões do pensamento que desafiam a comunidade.

Diante disso, é norteadora a frase do filósofo cristão contemporâneo William Lane Craig: “Não é suficiente focar em entretenimento e pensamentos devocionais bobos nos grupos de jovens e escolas bíblicas. Temos que treinar nossos filhos para a guerra. Não podemos enviá-los para o ensino médio e para a universidade armados de espadas de borracha e armaduras de plástico. O tempo de brincar já passou” (1)

Se você considera essa frase pouco espiritual, insensível ou arrogante, talvez ainda não tenha percebido o que está em questão. Tudo isso tem a ver com um pouco do que estamos escrevendo nesse artigo: a necessidade de o cristão caminhar na aridez do universo do pensamento e da cultura. Um universo onde, na maioria das vezes, não encontrará nada de Jesus e nada referente às consolações que o cristão pode encontrar, por exemplo, em sua comunidade. Mas é um caminho necessário.

Quando Jesus, na oração sacerdotal, pede ao Pai: “Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno” (Jo 17.10), é inevitável aplicarmos isso ao caráter engajador do academicismo cristão: não basta que existam líderes de louvor e pastores; é necessário que haja também cristãos comprometidos com a defesa do pensamento cristão na academia, e que não façam essa defesa em nenhum dos extremos, a saber, o do fundamentalismo cômodo (que é a incapacidade crônica de renovar a linguagem) ou do liberalismo cômodo (a incapacidade de manter um pensamento que seja coerente com a História), mas na lucidez cêntrica de uma ortodoxia engajada com a necessidade de renovação da linguagem (sem abandonar os princípios) e da apreensão do sentimento da contemporaneidade.

Por que a filosofia, ao que parece, está se tornando tão popular atualmente? Porque as pessoas estão se dando conta de que a contemporaneidade pede por um sentido e, desistindo de encontrar sentido na religião, passam a buscá-lo no pensamento. Mas essa é uma necessidade também para a Igreja.

É certo que há muitas pessoas, entre os cristãos, que se interessam pela cultura e pelo pensamento, mas o fazem sem se preocupar com uma formação acadêmica e com o engajamento em uma carreira mais sólida, focada na formação árida e no aprofundamento das fontes. O meu incentivo e o meu convite é que essas pessoas não se contentem com o autodidatismo, mas que enfrentem, com coragem, a necessidade de aprofundar-se com seriedade nos fundamentos históricos do pensamento, buscando uma maciça formação, quer seja em ciências naturais, quer seja em ciências humanas. É necessário que surjam pensadores e cientistas cristãos às centenas. Pois já existe muito sério engajamento na Teologia, tanto bíblica quanto sistemática, mas há poucos cientistas, pensadores, filósofos, historiadores, antropólogos, sociólogos, geógrafos, cientistas da religião, psicólogos, pedagogos, jornalistas, literatos, psiquiatras, neurologistas, matemáticos, físicos, cosmólogos, químicos, bioquímicos, biólogos, arqueólogos cristãos.

Ao chegarmos nesse ponto, é inevitável a reflexão: o que é, exatamente, um pensador e um cientista cristão? É simplesmente alguém graduado em uma área específica do pensamento e que frequenta a igreja? Obviamente, trata-se de algo muito distinto disso. Um pensador e um cientista cristão, no sentido estrito, é um teólogo que somou à Teologia uma área específica da ciência e do pensamento humano. Alguém que percebeu que a sua vocação não é produzir uma teologia que seja apenas para a Igreja. Ele é também um evangelista na área acadêmica, alguém que percebeu a importância da teologia também no campo da cultura, da ciência e do pensamento secular. Alguém deve influenciar essa cultura, que é secular, tornando-a mais conforme Jesus, conforme os ensinamentos da Igreja. Ele não impõe os ensinamentos da Igreja, mas é alguém que convence pelas regras do pensamento e da lógica. Ele também está imbuído de uma espiritualidade que é desconhecida desse mundo. Desconhecida também do pensamento da nova era. E o que são os ensinamentos da Igreja? A teologia da prosperidade, enriquecer às custas das pessoas, a Inquisição, as Cruzadas, a ostentação, a imposição, o moralismo, o legalismo, o fanatismo, o mundo do êxtase irrefletido e das sensações? Nada disso tem a ver com a essência da Igreja (2). O ensinamento da Igreja é a vida e os ensinamentos de Jesus de Nazaré.

Portanto, são necessários certa dose de discernimento vocacional e de coragem para adentrar a aridez da vida cristã acadêmica. É necessário também, como diremos mais adiante, certa dose de inspiração e originalidade. Criatividade. É preciso coragem para guerrear dentro da arena do pensamento, não se apequenando, sem ser pusilânime, mas igualando-se com os grandes espíritos da História, enfrentando os principais pensadores do mundo ocidental, aprendendo e dialogando com eles mas, principalmente, opondo-se àquilo que é contrário à essência dos ensinamentos de Jesus, a maior luz que já surgiu na História, inabalável, inigualável.


2. Ortodoxia, originalidade e especialização

Assim diz o filósofo cristão contemporâneo Alvin Plantinga: “Primeiro, filósofos e intelectuais cristãos devem demonstrar mais autonomia – mais independência do resto do mundo filosófico. Segundo, filósofos cristãos devem mostrar integridade – integridade no sentido original da palavra, ser um inteiro. Talvez ‘integralidade’ fosse a melhor palavra aqui. E necessário aos dois há um terceiro: coragem cristã, ou ousadia, ou força, ou talvez auto-confiança cristã” (3).

O que quer dizer tudo isso? Significa, exatamente, a necessária coesão entre dois elementos que podem, à primeira vista, parecer opostos, mas são indissociáveis: ortodoxia e originalidade. Ora, de acordo com o senso comum, ser cristão é ser necessariamente reacionário, algo que se opõe à originalidade. Quem pensa assim não conhece a fundo as raízes do pensamento cristão.  O cristianismo, desde as suas origens, perseguido inicialmente pelos imperadores romanos, tem o que pode ser considerado de mais original e subversivo. E mesmo na era medieval, quando torna-se finalmente cultura, não perde sua força e originalidade. O elemento essencialmente sacro, os conteúdos da arte sacra, que se estendem à modernidade, a mística esponsal da era de ouro, a espiritualidade espanhola do século XVI, os mosteiros como centros que irradiam espiritualidade e cultura, tudo isso são conteúdos essencialmente originais da cultura cristã, que inundou o ocidente e alcançou muitos corações que contemplam o Cristo que é exaltado entre as nações. Ora, é necessário, aqui, que esses elementos sejam considerados como o que há de mais original e que se opõem ao espírito do secularismo, e esse reconhecimento e essa identidade são exatamente a ortodoxia.

É indispensável que o pensador e o cientista cristão, ciente dessa cultura do qual a sociedade está impregnada – mesmo tentando a ela resistir –, mantenha-se fiel às suas raízes de forma original e ortodoxa, pois a ortodoxia – diferente do fundamentalismo – é a originalidade. É necessário, pois, que o pensador e o cientista cristão percorra um caminho próprio, distante do secularismo, e que caminhe na aridez, mas que nessa aridez lance raízes fundamentadas em uma cultura que, por ser essencialmente bela, jamais deverá ser esquecida.

Referimo-nos aqui, evidentemente, ao caráter místico e espiritual do cristianismo.

É necessário que o teólogo cristão se questione em qual área aprofundará a sua teologia, pois o olhar do pensador e do cientista cristão é, necessariamente, um olhar teológico. O pensador e o cientista cristão necessita, antes de tudo, ser teólogo. É preciso que ele aprofunde o discernimento vocacional e se questione: em que área do pensamento aprofundarei a minha teologia? Pois é certo que a teologia bíblica e a teologia sistemática não são as únicas formas de se exercer a teologia. Não é um caminho obrigatório. Deve-se assim, o vocacionado, questionar, se realmente a sua teologia será voltada apenas para os que estão do lado de dentro da comunidade cristã, ou se não há, em sua vocação, algum pendor para a atuação evangelística no sentido de contribuição para a formação cultural cristã da sociedade. Ou seja, a teologia que ultrapasse o biblicismo, que fale uma língua que o mundo entenda e diga respeito não somente à Igreja, embora em sua base esteja sempre se direcionando à Igreja.


3. Vida acadêmica: da aridez e das consolações

Existe um caminho que é necessariamente o da solidão acadêmica e no qual se abraça a aridez não por conforto, mas por vocação. Trata-se de um caminho distante do mundo dos louvores, das mãos estendidas, em alegria, aos céus, e da doçura das consolações encontradas na comunidade. Um mundo mais próximo do que o cristão tem a dizer ao mundo na segunda-feira do que do que tem de receber da comunidade no domingo festivo. O mundo do pensador e do cientista cristão é um mundo de solidão e aridez necessários. Um mundo em que se caminha no deserto por amor a uma causa. É, esse pensador e cientista cristão, necessariamente, um idealista. Mas é também um realista. Ele tem em Deus a sua fonte de experiência mais concreta. E por causa dessa concretude, ele consegue, distante das consolações comunitárias, caminhar na aridez. Mas essa aridez e esse deserto serão também a sua verdadeira fonte de consolação.

Trata-se, aqui, da necessidade de ser capaz de extrair, do que é aparentemente árido e infértil, a consolação necessária, pois é caminhando na aridez do pensamento secular que encontrar-se-ão as bases para demolir tudo aquilo que inutilmente tentou erigir o mundo: um monumento aparentemente gigantesco, mas de bases frágeis, insuficientes para derrubar aquilo que a Igreja sabiamente construiu através dos séculos. Só conseguirá demolir essas estruturas, que perceberá como frágeis, se aventurar-se a conhecer profundamente o que o academicismo secular construiu com o passar dos tempos, em oposição à sólida filosofia da Igreja e ao pensamento teísta mais profundo.

A Igreja possui uma filosofia sólida, mas há ainda muita dispersão e diversidade de pensamentos. É preciso um conhecimento que atravesse todas essas filosofias para que alcance um pensamento, uma síntese ainda não encontrada. É necessário que o filósofo cristão caminhe na aridez, busque uma formação sólida e respeitável, aprofunde-se, especialize-se, conheça em profundidade as raízes que tecem as linhas das danças constantes das marionetes. Que conheça em profundidade também tudo o que foi produzido de sólida filosofia cristã e teísta. Trata-se de um engajamento constante, de um afastar-se das consolações dominicais e dos devocionais infantis.

Isso não significa que abandonará a espiritualidade, tampouco a comunidade, a Igreja. Não há sentido em fazer tudo isso deixando a Igreja; não é disso que estamos tratando aqui. Estamos tratando, antes, de uma solidão desconhecida, necessária e pouco compreendida, mas que não esteja demasiadamente distante da comunidade. É preciso estar alicerçado na comunidade, mas sem grandes projeções e apego. É necessário que se dedique à vida devocional, mas que não seja alicerçada em uma experiência infantil, mas em uma sólida leitura e caminhada de espiritualidade fundada nos místicos da Igreja.

Uma misteriosa solidão acompanha o vocacionado, tanto o místico quanto o filósofo. É indispensável aprender a caminhar sozinho e é necessário extrair a consolação dessa aridez. É preciso se adaptar a isso.

As consolações que brotam do Espírito Santo não têm fim. Elas se mostram renováveis, mesmo nos momentos mais desérticos, mesmo em meio à noite escura, a ditosa noite escura, conforme João da Cruz.

Depois de trilhar um longo caminho, adquirirá a independência e a fortaleza necessária para erigir um pensamento e uma ciência que tenham algo a dizer ao mundo. Esse é o nosso conselho e o nosso encorajamento: cristãos, formem-se em filosofia, formem-se em ciências. Busquem a especialização. Transformem o mundo.


Bibliografia

(1) CRAIG, William Lane, Quem Precisa da Apologética Cristã

(2) CRUZ, Anderson Francisco da, A Natureza da Igreja

(3) PLANTINGA, Alvin, Conselho aos Filósofos Cristãos