quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Neomedievalismo. Sexta Parte


SEXTA PARTE. ANTROPOLATRIA,  ANTROPODULIA, AMBIGUIDADE E NÃO-SENTIDO


Constituem, as constantes transformações dos tempos, algo que requer, por parte do pensamento, não somente a esperada renovação da linguagem, mas também o surgimento de novos termos. Sendo, uma cultura de longa duração, aquilo que acumula tensão, expectativas e pluralidade de pensamentos, entrelaçados de maneira complexa em uma intrincada teia, a ditar a dança constante das marionetes, é necessária certa filosofia da história e da cultura que reorganize o pensamento, apontando novos rumos, e que inspire novas gerações, fundadas agora em esteios mais seguros, podendo conhecer, além do olhar tradicionalista e institucional, uma estrutura fundante e mantenedora do oikoumene, a guiar, dirigir e inspirar a História sob o mesmo olhar que contemplou as doces águas tranquilas da Galileia. O pensamento cristológico não é a filosofia das instituições, mas o pensamento fundante do próprio mundo, o qual revela, através de fartas evidências históricas, o impacto da cristologia que constitui fundamentos os quais não foram, pela insurreição iluminista, e também romântica, abalados.

É assim, a frágil espiritualidade neoromântica, aquela que dá origem a esses quatro elementos, entrelaçados, a saber: antropolatria, antropodulia, ambiguidade e não-sentido.

Inexiste, na filosofia  de tipo neoagiana, o que denomino pressuposto ontológico do relacionamento. Sendo, na filosofia  propriamente neomedievalista, o que confere sentido às relações um Deus pessoal, transcendente, relacional e amoroso, na espiritualidade de tipo mais superficial o conceito de divindade jamais é claramente definido, e tampouco a ideia de adoração, isto é, de alguém que presta culto e se rende diante daquele que transcende em bondade, misericórdia e beleza a criação, concedendo pleno sentido à mesma, e que interage com o humano; tal ideia não pode ser estabelecida, voltando-se, então, a imagem de culto ao próprio homem, constituindo, assim, a antropolatria, a qual é própria de uma espiritualidade que, sendo pós-moderna, possui raízes em determinado modernismo pragmatista histórico.

Vemos surgir, assim, na ideologia antropólatra, um movimento de ingenuidade sem precedentes: se o homem está unificado com a natureza, se a divindade é fluida e esparsa, se o princípio divino é imanente e confunde-se com o próprio homem, a consequência natural é que ele poderá, a partir de então, ser adorado, o que sem dúvida constituirá uma espiritualidade das menos inteligentes possíveis, pois é atitude menos prudente e razoável imaginável cultuar o próprio homem. O culto e o fascínio pela natureza, pelo exótico e pelo sentimento romântico subjetivista é, em última instância, o culto ao próprio homem, o exílio de toda espiritualidade cristã relacional inteligente,  de um Orígenes e de uma Teresa de Lisieux, é o naufrágio de todo o sentido da grande cultura e a ideologia que jamais poderá subsistir, quando confrontada com os princípios sólidos, estruturais e arquitetônicos dessa Filosofia Mística, a qual é o olhar inteligente para aquilo que os verdadeiros grandes místicos construíram através dos séculos.

Se a antropolatria é o culto incessante ao próprio homem, é, a antropodulia, uma relação horizontal, e não vertical, como aquela, em direção aos propósitos pragmatistas de uma era que, não inaugurando algo novo – embora ecoe ingenuamente a trombeta de uma falsa aurora –, introduz o que denomino ditadura do hedonismo e do entretenimento, onde o espírito de jovialidade que permeia os relacionamentos parece instituir comunidades, mas institui tribos. A antropolatria introduz a adoração a um outro, enquanto a antropodulia inaugura uma adoração a um grupo, no qual aquele que adora também está inserido. Porém, não é adoração em sentido estrito, pois essa, por definição, só pode ser em relação ao transcendente. Constitui, então, o espírito da falsa adoração pós-moderna, a atmosfera da ambiguidade e do não-sentido.

É, a espiritualidade líquida contemporânea, o entreter-se contínuo, a grande expectativa em relação ao sensível e o esquecer-se do humano. Porém, é extremamente difícil de ser discernida porque, como já afirmei, a espiritualidade que é própria da grande cultura também lida continuamente com o sensível, se a definirmos como uma cultura de santidade que se desprende dos mosteiros para se tornar agora cultura cosmopolita e verdadeiros relacionamentos. Nesse sentido, para distinguir entre as duas espécies de espiritualidade não basta definir alguns poucos conceitos. É necessário construir uma nova teoria de espiritualidade – que, sendo nova, possui raízes na própria cultura. A saber, a verdadeira Filosofia Mística.

Sendo, a antropodulia, o culto ao grupo, a antropolatria é o culto a um outro, relação vertical a um que aparenta ser um pacificador, isto é, alguém de quem muito se espera, e que pelas suas muitas habilidades institui o culto ao humano, pois, sendo quem vem em nome de si mesmo, parece instituir algo novo; é, porém, a religião que se volta contra o espírito que é próprio da grande cultura. No seio da grande cultura, encontrar-se-á a verdadeira espiritualidade. O que aparenta ser o novo, sem o ser, é movimento de contracultura, e é falsa espiritualidade.

A caracterização da antropodulia, ou culto ao grupo, é o estabelecimento de uma falsa inteligência, eternamente distraída, a qual, vendo, não vê, ouvindo, não escuta, falando, não diz, tocando, não sente. O espírito renascentista que, dizendo adorar, não adora, constitui a adoração hipnótica que, cegamente guiada, mas sem guia, estabelece relacionamentos frágeis e ambíguos, e que por não ser adoração em relação à transcendência, mas difusa, se perde em sua própria imanência – carente de fundamentos sólidos –, e se torna, então, não-sentido.


FIM DA SEXTA PARTE

sábado, 20 de julho de 2019

Neomedievalismo. Quinta Parte


QUINTA PARTE. ESTÉTICA, AMBIGUIDADE E IMANÊNCIA. PENSAMENTO, VOLIÇÃO E TRANSCENDÊNCIA. DISTINGUINDO ENTRE UNIDADE DE SUPERFÍCIE E COESÃO PELA VIA DO PENSAMENTO E DA VONTADE


Como já afirmei, subsistem, em nossa cultura, dois movimentos de unidade, sendo, o primeiro, o da espiritualidade fluida e, o segundo, aquele que é próprio da grande cultura. Nesse momento, esclarecerei melhor a natureza desses dois movimentos.

Em uma sociedade em que, tanto os pensamentos quanto as relações tornaram-se múltiplos e fragmentados, é natural que, em resposta a todo esse caótico pluralismo, passe-se a falar em unidade, retome-se o interesse pela metafísica e pela possibilidade do uno, muito mais interessante, do ponto de vista filosófico, do que a dispersão completa e a perda de sentido. Sendo assim, a busca por uma unidade ocorre tanto na esfera do pensamento quanto no âmbito das relações.

Contudo, embora essa unidade seja buscada, o que ocorre é que não se sabe muito bem o que seria esse uno, de forma que buscas profundamente distintas podem ser confundidas em sentimentos absurdamente semelhantes, sendo possíveis de serem distinguidos somente através da Filosofia Mística, ainda que tal distinção não seja o objetivo único dessa filosofia.

Destaco, aqui, um aspecto importante dos relacionamentos na esfera cultural hodierna, que não pode ser ignorado: tanto a espiritualidade do primeiro tipo quanto a espiritualidade mais profunda lidam com as sensações. No neomedievalismo, o sentido dos relacionamentos é justamente essa espiritualidade que sai dos mosteiros, e uma cultura de santidade que se despreende dos claustros para se fundamentar em um movimento que vai ao encontro da alteridade, e que busca no outro o sentido de uma unidade cujo fundamento existe na própria cultura, sendo o espírito cristão um fundamento ontológico que nela mesmo subsiste, transformando as relações. Esse é o sentido da busca por unidade de segundo tipo, a qual, porém, lida com as sensações, com o mundo cosmopolita, urbano, pós-monástico, contemporâneo, e deve fundamentar o sentido mais profundo da santidade não mais em uma privação do sensível, mas na sua transfiguração, de modo que nessa espiritualidade nova o sensível não mais é excluído, mas transfigurado em uma santidade que deve ser capaz de permanecer firme mesmo no âmbito dos sentidos. Para se viver a santidade, não mais se foge do mundo, mas aceita-se livremente o desafio de vivê-la plenamente estando dentro do próprio oikoumene, através do fundamento dos santos e dos místicos, cujo centro irradiador e hagiográfico são a vida e os escritos de místicos como João da Cruz e Orígenes, isto é, aqueles que são os maiores entre os santos e que, ainda assim, permanecem capazes de falar uma linguagem plenamente atual, compreensível e acessível ao nosso mundo. Estabelecendo, assim, que essa espiritualidade nova lida continuamente com o sensível, concentrarei agora meus esforços em distingui-la da espiritualidade de primeiro tipo, e em diferenciar as duas espécies distintas de busca por unidade e coesão que coexistirão, doravante, em nossa cultura.

Passarei a tratar, então, da busca por unidade do primeiro tipo. 

O primeiro sentimento de unidade e sentido de espiritualidade constitui, especificamente, aquilo que podemos denominar holismo metafísico, o qual opera por três princípios primordiais: o primeiro, a estética; o segundo, a ambiguidade;  o terceiro, a imanência. Deter-me-ei nesses três termos, mas, não ainda de maneira fundante, porém introdutória, pois o objetivo dessas exposições constituem o ensaio, e não ainda os fundamentos, embora sejam bastantes proveitosas para introduzir um novo pensamento, que será  estruturado, em breve, de maneira fundacional, e também metódica.

Sendo, a estética, o primeiro princípio da espiritualidade fluida, isto significa que, ao contrário da experiência mística propriamente neomedievalista, aquela faz do sentimento estético uma via estrutural e fundante, de modo que o sensível não mais é, apenas, um caminho que necessita ser percorrido, mas o próprio sentido existencial e ontológico,  fundamento extremamente frágil que constitui uma espiritualidade a um só tempo utilitarista, sofística e pragmatista, na qual o relacionamento com o próximo, o pensamento e o transcendente se dissolvem em um imanentismo no qual as relações com a alteridade não mais existem propriamente, mas o ego insiste em se apropriar do todo, ingenuamente, como se o pudesse, pois é fato não muito difícil de ser notado que, em toda cadeia de relações, as partes coexistem de forma particular, identitária e própria, sendo a multiplicidade do que se relaciona submetida ao princípio de causalidade que transcende e dá sentido ás relações – pois se a causa fosse inerente ao efeito, com ele coexistindo, não existiria causa nesse mundo, mas ela mesmo se aniquilaria, o que é absurdo –, de modo que toda experiência dita mística que possui o seu fundamento em uma experiência estética da existência está relacionada a um certo imanentismo cósmico e existencial, e possui fundamentos frágeis, tanto no âmbito existencial quanto no nível ontológico.

No âmbito existencial, o que é a experiência estética da existência? É o âmbito do hedonismo despótico e do entretenimento continuo, isto é, o culto incessante ao sensível, e também o domínio do sentimento sobre o pensamento, e da sensação sobre a vontade, o qual, mesmo quando se constitui como pensamento, jamais serve a si próprio, mas ao domínio dos sentidos, não podendo o pensamento fundar-se, por si mesmo, em terreno seguro. A espiritualidade fluida é aquela que, mesmo quando se apresenta como genuinamente cristã, constitui a esfera do ilusionismo e do protagonismo dissimulantes, e que, mesmo quando parece comunidade, e parece acolher, não efetua a verdadeira sinergia, mas o estereótipo de uma espiritualidade que se dissolve em arte de dissimulação premeditada e voluntária, cujo propósito é jamais ser, mas parecer, o que ocorre tanto no nível das lideranças quanto nos relacionamentos mais informais e singelos. Porém, mesmo quando não aparenta ser cristã, isto é, no âmbito do secularismo, é também arte de atrair para si, mas jamais doar-se inteiramente. A arte da experiência estética é o domínio do oculto e do sentimento que, em breve, constituirá uma espiritualidade líquida e unificada que se parecerá muito com uma coesão genuína. Constituirá apenas, contudo, uma unidade de superfície.

No nível ontológico, o que é a experiência estética de existência? Trata-se de uma perspectiva extremamente pragmatista e  sensualista acerca do cosmos, na qual o indivíduo não intenciona relacionar-se com os seres e as coisas, mas expandir-se para além dos limites de sua individualidade, confundindo expansão de consciência com relacionamento. Ora, nenhuma cultura conheceu o que são, propriamente, os relacionamentos, como a grande cultura ocidental cristã, cujo sentimento medievo é uma coesão que opera não apenas em valores de unidade cristã, mas em uma estrutura ontológica fundante do mundo, que o sustenta sem se confundir com ele – o que, em filosofia mística, entendo como o próprio Verbo que se encarnou, unindo-se ao criado, porém sem nele dissolver-se, de modo que nesse pensamento a estrutura é relacional, e não imanente –, sendo a coesão que é própria da grande cultura algo que  supera, em solidez, a frágil espiritualidade líquida neoromântica.

A espiritualidade de primeiro tipo, além de fundamentar-se na estética, constitui também o predomínio da ambiguidade, isto é, o jogo de dissimulação necessária e continua, onde nenhuma relação, quer com o divino, quer com o humano, pode se estabelecer em fundamentos seguros. Trata-se do âmbito das relações instituídas em uma dinâmica e jogo de luz e sombras, no qual a confiança no humano jamais pode se apoiar plenamente, mas se constroem laços que não realizam a autenticidade que é requerida em qualquer relacionamento. Constroem-se, assim, lideranças baseadas no autoritarismo e na ambiguidade relacional, onde a santidade jamais é desejada, e comunidades inteiras são arrastadas e conduzidas pelo jogo, pelo protagonismo. Na esfera das relações singelas, uma coesão é buscada, mas jamais atingida. Fora das comunidades, isto é, no âmbito da grande cultura, mesmo os relacionamentos seculares também, raramente, são construídos de acordo com aquele princípio de unidade que é inerente às raízes da espiritualidade milenar cristã, a saber, cristológica. Qual é a essência dos relacionamentos? Qual é o princípio da distinção de uma coesão nítida? Ademais, se até mesmo um satanista é capaz de escrever e discursar sobre a Crucificação e levar multidões a lágrimas, como estabelecer, quer o conhecimento, quer o relacionamento, em fundamentos seguros? Afirmamos que, seguramente, sobre os fundamentos dessa Filosofia Mística, e através do fato que aqui expomos: não há mais sentido em fundamentar uma espiritualidade através do refúgio em instituições. Deveríamos inaugurar uma maneira nova de nos relacionarmos com o instituído. A espiritualidade neomedievalista será aquela vivida no próprio mundo, no seio da grande cultura, indo além dos muros.

O terceiro princípio da espiritualidade fluida é, naturalmente, a imanência. No holismo metafísico jamais é, o conceito de divindade, estabelecido em conceitos filosoficamente claros, carecendo, assim, de rigor epistêmico e lógico. O fundamento de causalidade do próprio mundo, definido com rigor lógico na filosofia tomista, e também craiguiana, perde-se em conceitos vagos e contraditórios na espiritualidade neoagiana, a qual possui caráter menos contemplativo do que pragmático, não realizando, verdadeiramente, aquilo que entendemos como a essência mística, que é a expressão de um relacionamento, na mística milenar cristã mais profunda, e que difere da espiritualidade de tipo mais pragmatista, de tipo fraternista, que é, especificamente, o princípio de toda cisão da grande cultura, da desconstrução do sentimento profundo hagiográfico, não realizando a Eclesia, isto é, o conhecimento contemplativo subsistente no próprio mundo, mais profundo de Orígenes, Bernardo de Claraval, João da Cruz, Jonathan Edwards, William Wilberforce e Martin Luther King, uma sabedoria firme que é própria do ocidente (1) e que, fundamentando a sinergia, estabelecendo a misericórdia e vivenciando a mística esponsal constituirá, especificamente, uma teoria que não apenas definirá os princípios do neomedievalismo e dos relacionamentos, mas, além disso, estabelecerá fundamentos seguros que são próprios de um sistema abrangente e vasto de filosofia, que aqui exponho de maneira, ainda, introdutória.

O segundo sentimento de unidade, necessário, o qual deve ser estruturado filosoficamente, de forma a constituir uma teoria consistente de espiritualidade, é justamente aquele que já é próprio da grande cultura do ocidente, e que nele está presente como que de forma invisível, e também subterrânea, e constitui, acima de tudo, uma grande memória, viva e que é própria de um grande pensamento – pois é certo que os relacionamentos estão, de algum modo, vinculados aos pensamentos culturais, e há um que reside na tradição, não, porém, de forma apenas teórica, mas como algo vivo, uma estrutura fundante, uma pedra firme que não será, por muitos, rejeitada, presença atuante, espiritual e que transcende a natureza, pois é relação e identificação com o humano, e com o criado –, o qual opera através de três princípios fundamentais: o primeiro, o pensamento; o segundo, a volição; o terceiro, a transcendência. Sendo aquele que entendemos como o Logos,  o Verbo, a Palavra,  o próprio pensamento que organiza o mundo, é natural que opere também pelo pensamento; sendo, ademais, aquele que possui vontade, infinita, e propósitos infinitos em relação à criação, é natural que opere também pela volição; sendo, enfim, transcendente, é natural que organize o mundo através do princípio de causalidade, necessidade, universalidade e teleologia, sendo, portanto, não imanente. Pois é certo que, se as teses céticas modernas e contemporâneas não foram capazes de desconstruir a ideia de Deus em nossa cultura, mas apenas lhe conferiram certo pragmatismo kantiano, e que filósofos analíticos recentes como Alvin Plantinga e Richard Swinburne têm, nos últimos cinquenta anos, trazido à tona um pensamento novo acerca da ideia de Deus que responde aos maiores desafios céticos (2), e, sobretudo, William Lane Craig, o incomparavelmente maior de todos, vem destruindo o ateísmo, a questão central agora não mais é se a defesa da ideia de Deus é racional ou não, como nos séculos precedentes, mas o que significa, exatamente, algo como espiritualidade, e qual é a que fornece, filosoficamente, maior sentido.

Na espiritualidade propriamente  neomedievalista, o intelecto possui domínio sobre a emoção, e a sensação submete-se à vontade. Desse modo, como já afirmei anteriormente, nessa nova  espiritualidade não mais há o temor do sensível e a fuga do mundo, mas a transfiguração da sensação e a vivência de uma espiritualidade profunda, muito rica e relacional dentro do próprio oikoumene, onde a santidade se instaura de forma progressiva e serena, indo corajosamente além dos seus  próprios limites e mais fundo do que jamais antes estivera, até atingir aquele sublime estado de perfeição do qual falam os grandes místicos que conhecem a elevada linguagem de João da Cruz, do Carmelo, porém transfigurada agora em uma que é  plenamente compreensível e acessível ao nosso mundo, cosmopolita e múltiplo, no qual o claustro não mais é um refúgio institucional que se despreende do mundo, mas a própria interioridade, a abrigar aquele que é entendido na longa tradição mística milenar cristã como o Esposo. A espiritualidade neomedievalista, não temendo as sensações, mas submetendo-as à vontade, estabelece verdadeiros relacionamentos dentro da própria grande cultura e, diferentemente da espiritualidade neoromântica, não institui no sensível e no entretenimento uma pedra basilar para a constituição de relacionamentos superficiais e fugazes, mas estabelece, em uma profunda espiritualidade, aquele que será um movimento decisivo e firme em direção à alteridade.

Diferenciando-se da rasa experiência estética da existência, destacando-se pelo amor ao pensamento, realizando a volição, mais profunda, em relação ao humano, estabelecendo um relacionamento com a transcendência, e não uma expansão imanente da consciência, a espiritualidade  que é própria de Orígenes, Bernardo de Claraval, Teresa de Ávila e João da Cruz, na filosofia neomedievalista, opor-se-á à espiritualidade de tipo neoromântica e, diferentemente de uma busca por unidade de superfície, constituirá, profundamente, a coesão que opera pela via do pensamento e da vontade, fundamentando, na grande cultura, o verdadeiro sentido de unidade.


FIM DA QUINTA PARTE 
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(1) Embora Orígenes tenha sido um filósofo oriental, sua inspiração constituirá aquilo que podemos denominar a essência mística cristã mais forte, esponsal e especulativa que se desenvolverá dentro do Ocidente, a qual atingirá o seu clímax em João da Cruz, de modo que o místico de Alexandria será nada menos que o grande divisor de águas da espiritualidade de nossa cultura.
(2) CRAIG, William Lane, God is not dead yet, em https://www.reasonablefaith.org/writings/popular-writings/existence-nature-of-god/god-is-not-dead-yet/. Acesso em 20.07.2019.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Neomedievalismo. Quarta Parte

QUARTA PARTE. DA NECESSIDADE DE UMA DISTINÇÃO DO PROFUNDAMENTE DISTINTO E  JÁ ABSURDAMENTE SEMELHANTE 


Decifrar a cultura cristã é algo extremamente difícil  e que requer um pensamento complexo e atento às várias nuances culturais que operam em uma ensurdecedora mistura de ruídos e de pensamentos que se entrelaçam e se confundem, de modo a requerer um olhar não apenas filosófico, mas também místico-contemplativo. A era da multiplicidade requer um olhar silencioso e a capacidade de  selecionar informações e estabelecer um pensamento que seja não apenas erudito, mas também profundo e complexo. É necessário não apenas perspicácia, mas também criatividade e imaginação, aliada a uma certa curiosidade necessária e um fio condutor que perpasse toda a história do pensamento, a qual se tornou menos criativa no século XX, afastando da filosofia o seu aspecto mais estruturante e próprio: o metafísico.

O mundo de hoje é extremamente complexo e muito diferente do mundo antigo porque acumulou tensão, e pensamentos difíceis de serem discernidos. A ideia de Deus tem sido debatida em toda a história da filosofia, gerando acúmulo de tensão e a falta de certeza tanto para o defensor da metafísica quanto para o cético, tendo a recente ciência não mais buscado um conhecimento certo, universal, apodítico e necessário, mas baseado em sensações. A incerteza pós-moderna é o universo da ambiguidade do pensamento, porém, não apenas em seus aspectos teóricos, mas, também, das relações.

Todo relacionamento compreende o sentimento e, acima de tudo, a vontade, mas depende também do entendimento. Se o pensamento de uma cultura é fragmentado e ambíguo, também o serão as relações. Na realidade, certa espiritualidade mais superficial tem insurgido não hoje, mas desde algumas décadas, porém é nesse momento que, podemos dizer, alcançou o seu mais alto fim e ápice: a ambiguidade absoluta.

Quem hoje é, realmente, o cristão? Não mais sabemos. Sua figura tornou-se ambígua. Discerni-lo tornou-se impossível, de modo que hoje a imagem do cristão tornou-se indistinguível da imagem do praticante de uma  espiritualidade fluida. O mesmo ocorre em relação a lideranças. Confissões e rituais públicos tornaram-se insuficientes. De algum modo, será possível reconhecê-lo, mas para isso será necessário o estudo da Filosofia Mística, que é, exatamente, a que aqui é exposta.

O estabelecimento do neomedievalismo é, exatamente, o horizonte da radicalidade no universo da superficialidade, onde a Filosofia Mística, sendo conhecida, apontará o caminho filosófico-místico necessário em um mundo que testemunhou o recente desmoronamento do ateísmo e a ambiguidade das relações, e deseja encontrar o seu caminho. É, a Filosofia Mística, um caminho de construção da grande cultura, definindo conceitos, delimitando pensamentos, discernindo relacionamentos e estabelecendo, de forma concreta, determinado estruturalismo que nesse momento histórico se demonstrará, em um só tempo, absoluto, místico, transcendente e humano.


FIM DA QUARTA PARTE 

Neomedievalismo. Terceira Parte


TERCEIRA PARTE. O RELACIONAMENTO E O SEU PRESSUPOSTO ONTOLÓGICO 


Talvez possa parecer ao leitor algo pouco emocionante, em termos filosóficos, tratar de relacionamentos. Se isso ocorre, pode ser por três motivos muito distintos. Primeiro: não está muito atento ao que são realmente os grandes movimentos de nossa cultura, e ao modo como eles deságuam no caldo cultural do ocidente, estabelecendo pensamentos e relações. Segundo: desconfia que é um tema mais interessante para a sociologia do que para a filosofia, e nesse ponto eu afirmaria não possuir uma visão tão delimitada acerca das ciências humanas, e vejo a filosofia como o pensamento estruturante e abrangente que alcança, metodica e extensivamente, territórios muito mais vastos do que qualquer outra ciência. Terceiro: não tem como perspectiva o pressuposto ontológico do relacionamento.

Ater-me-ei ao terceiro ponto.

Considero, em filosofia, a partir do pressuposto ontológico, o relacionamento. Pois, se as relações não são mais do que meras convenções pragmáticas e artificiais estabelecidas por primatas avançados para fins de sobrevivência, podemos considerar natural o atual estado de coisas, isto é, a fragmentação de todo o sentido das relações pós-modernas. Porém, se, mesmo que tenhamos evoluído, existe um fundamento estruturante e ontológico que precede toda a cadeia de evoluções, se existe um sentido universal e necessário que antecede toda a multiplicidade, e se há um elemento teleológico dado, pelo qual podemos guiar as relações, então essa nova objetividade dará um outro significado ao intercâmbio entre os seres, e a teoria neomedievalista fará total sentido.

A modernidade produziu a bomba atômica, duas guerras mundiais e a guerra fria, mas o espírito da Idade Média é que é temido. O espírito moderno, mesmo tendo sido recentemente desmoronado, parece ainda terreno seguro. O motivo é certo recorte historiográfico e determinada propaganda massiva mantida em um mundo onde a atmosfera renascentista permanece onipresente em todo o mundo ocidental cristão. Quando o protestantantismo desconstrói o catolicismo, ele não está se apropriando, especificamente, do seu destino histórico. O papel do protestantismo dentro da cultura cristã não é a desconstrução da História, mas a inspiração a uma unidade que será neolitúrgica. O evangelicalismo protestante e a sua renovação da liturgia, o Grande Despertamento, o espírito da nova arte sacra e os conteúdos da adoração constituirão, especificamente, os destinos e o caminho histórico que se darão em uma comunidade não mais fechada em si mesma, mas que se abre para o mundo. O espírito do neomedievalismo é aquilo que realiza o pressuposto ontológico que precede a multiplicidade das relações, que é o único que poderá se contrapor à insurreição de um neoromantismo fugaz e fluido, pois é relação concreta com o humano, através de uma grande abertura e do esvaziamento daquilo que eram, há pouco tempo, comunidades fechadas e conduzidas por lideranças ambíguas, e também a ambiguidade superficial de todas as relações. 

Somente entendendo os relacionamentos como momentos vinculados àquilo que é a própria estrutura do mundo, e através de um olhar neomedievo, no qual os destinos de uma grande comunidade constituem, necessariamente, a transformação do âmbito das relações a partir de um pressuposto transcendente e ontológico, compreender-se-á o que é o espírito do neomedievalismo, e as transformações culturais que se darão, brevemente, em nossa cultura.


FIM DA TERCEIRA PARTE

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Neomedievalismo. Segunda Parte


SEGUNDA PARTE. DOIS MOVIMENTOS HISTÓRICOS DISTINTOS DE COESÃO DENTRO DA GRANDE CULTURA 


Falar sobre coesão e sentimento de unidade em nossa cultura não é tratar de algo novo. Poderíamos perguntar: existe algo como uma grande cultura no oriente? Se há, permanece algo muito diferente do que subsiste entre nós, ocidentais. Contudo, o fato é que entre nós tal existe, ou, mais do que isto, o que há entre nós é uma certa tradição e uma grande memória. E, se quisermos ir mais fundo, além dos estereótipos desgastados que emprestam à Idade Média nada mais do que uma reconstrução modernista – pois é certo que tal período foi desfigurado pelas historiografias correntes da modernidade, sendo essa, em sua essência, o humanismo pragmático progressista que deságua no leito da instituição líquida pós-moderna –, deveremos reconhecer que pouco se sabe sobre esse momento histórico. O que existe é um sentimento de coesão nítida, e se eu perguntasse qual é a origem desse sentimento que une, de modo distinto de qualquer outro lugar e período histórico, vidas tão díspares e povos tão diferentes, dir-me-iam: o dogma. Contudo, eu afirmaria que essa resposta é insuficiente.

Ainda que fosse o dogma, tal não consistiria o maior problema, pois existem de variados tipos, e não apenas ritualísticos e religiosos, mas a ideia que se coloca é que o que causou tal coesão e sentimento de unidade foi um elemento que está para além do dogmatismo, isto é, certo estruturalismo, pré-cismático, ou estrutura de pensamento, ao qual denominamos, em Filosofia Mística, estruturalismo cristológico. Porém não é pensamento em sentido modernista, tão somente, mas um fundamento ontológico que aqui entendemos como a própria estrutura do mundo, que a nossa cultura conheceu em vivas cores tal qual nenhuma outra, e ainda a vivencia, mas de maneira muito diferente hoje, após a sucessão de todos aqueles movimentos humanistas históricos, de modo que agora temos, na grande cultura, mais do que uma experiência, uma tradição e uma grande memória cristã. Desse modo, existe ainda uma experiência, mas que percorre como que de maneira subterrânea a  superfície de todas as rupturas renascentistas e  de todos os relacionamentos fluidos.

Entretanto, para entender em que consiste exatamente tal estruturalismo, é necessária certa sistematização rígida e certa construção teórica. Nessas exposições filosóficas, estou introduzindo, e não ainda fundamentando o pensamento. Elas são úteis para a introdução de um pensamento. Refiro-me, obviamente, não a outra coisa senão à Filosofia Mística.

O Neomedievalismo será, especificamente, o novo sentido de unidade da grande cultura que dará fim ao período transitório da pós-modernidade. 

Entretanto, nesse momento se constitui não mais apenas um grande sentimento de coesão, porém dois, um já em curso, e outro, o que agora se anuncia: o primeiro é uma união difusa, o segundo, o próprio sentido neomedievalista da grande cultura. O primeiro, o sentimento pragmatista de uma espiritualidade fluida. O segundo, aquilo que constitui o sentido mais radical e concreto do estruturalismo cristológico, e da sinergia contagiante e própria. O fim de todo princípio de ruptura e uma unidade não fluida, mas que se concretizará em verdadeiros relacionamentos.


FIM DA SEGUNDA PARTE

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Neomedievalismo. Primeira Parte


PRIMEIRA PARTE. O SENTIDO DE GRANDE COMUNIDADE NA CULTURA OCIDENTAL CRISTÃ


Após as três grandes exposições que fiz sobre o sentido da Igreja, recentemente – embora nem tanto, pois a cultura pós-moderna é uma cultura que avança rapidamente, mesmo que, na maioria das vezes, imperceptivelmente –, faço agora essas exposições filosóficas tratando de um tema de grande interesse a todo aquele que se debruça atenciosamente sobre o pensamento, dessa vez em escrito, e divididas em partes, trazendo à  tona, dentro da História, finalmente, o tema do Neomedievalismo.

Entender o que é o espírito do Neomedievalismo será o mesmo que compreender  os destinos de nossa cultura, que é embebida de espírito cristão, mas que, desde os movimentos humanistas históricos, especialmente o de 1517, tornou em fragmentos o sentimento de unidade até então vigente, embora não tenha tornado os seus seguidores, por causa disso, menos cristãos, pois a essência do protestantismo é algo que transcende os próprios movimentos humanistas históricos, que apenas se servem de ocasiões e ocasiões, entender o que é o espírito do Neomedievalismo será o mesmo que decifrar o sentido daquilo que dará fim ao período denominado, entre nós ocidentais, pós-modernidade.

Contudo, não será tão fácil erigi-lo, e nem tão fácil entendê-lo, de modo que será necessária a construção paulatina e progressiva de um grande pensamento.

O sentimento ateísta, na cultura ocidental, o qual vem sendo substituído progressivamente por um renovado interesse pela religião, notadamente pelas religiões orientais, legou à cultura não uma desconstrução de uma espiritualidade, mas a desconstrução de um sentimento de unidade que prevalecia na grande cultura da hagiografia e dos mosteiros. Contudo, após o recente esfacelamento do sentimento ateísta, o que outrora era o monacato, em termos de espiritualidade, hoje se tornou o sentimento de uma grande cultura, ou de uma grande comunidade, de modo que falar de cultura ocidental cristã em termos de pequenas comunidades hoje perdeu o sentido. A cultura ocidental cristã sobreviverá se ela se entender hoje como uma grande comunidade fundamentada em elementos de unidade cristã aos quais denomino Neomedievalismo.

Desse modo, o sentimento cristão de unidade não será tanto um pluralismo religioso panteísta, pois tal elemento levaria inevitavelmente não a uma unidade, mas a uma dissolução, mas uma coesão nova fundamentada no que em Filosofia Mística denomino estruturalismo cristológico, que é a redenção de uma dissolução histórica do sentimento de unidade cristã. Contudo, paralelamente a esse sentimento de unidade, haverá também um outro, identificado com todas as vertentes de dissolução histórica, ao qual podemos denominar fraternista.

“Por que fraternista?”, questionará o leitor. O motivo é histórico: trata-se de uma construção fundamentada em outros princípios de coesão, diferentes do que denominamos estruturalismo cristológico, que é o sentimento de uma fraternidade que tem como princípios a instituição de uma progressão histórica necessariamente humanista, e de uma espiritualidade rasa e líquida. O estruturalismo cristológico, que aqui fundamentamos, possui um fundamento diferente. É como se fosse uma pedra, uma base firme que na unidade cristã não será rejeitada. Uma pedra diferente, muito mais firme do que a que seria utilizada, por exemplo, por construtores. Trata-se, obviamente, de uma analogia muito simples com profissões do cotidiano, como a de um trabalhador de uma construção, ou da carpintaria.

Se falo de construções, falo essencialmente de pensamentos, e o pensamento aqui estabelecido vem construir o que podemos denominar comunidade e sentido. Pois é certo que não é na multiplicação dos ajuntamentos em separado que se constrói uma comunidade, onde se busca uma coesão que nunca se alcança, e nem o poderia, pois o que há é antes a ilusão de uma unidade que não existe, ilusão que subsiste em um sentimento de coesão, diferente de vontade, que logo se desmorona como areia. A unidade far-se-á em nossa cultura não tanto através de comunidades isoladas que caminham rumo ao desmoronamento certo, mas em uma unidade em comum que subsiste no próprio mundo, mundo esse que é a própria grande cultura ocidental cristã, impregnada de sentimento cristão, o qual subsiste, embora como que de forma invisível. 

Dessa forma, o verdadeiro sentimento de unidade não será o olhar para o lado e ver em um banco o irmão, mas o olhar para a rua e enxergar o humano, de modo que amizades inesperadas podem ser construídas com quem há algum tempo julgava-se do outro lado do muro. Amizades entre pessoas de uma mesma grande cultura, cuja unidade se dará através de um conhecimento aberto para o mundo, o qual subsiste em um estruturalismo que é cristológico. 

Contudo, para que tal sentimento seja construído, é preciso estruturar um pensamento complexo, a um só tempo filosófico e místico. É preciso enxergar além dos muros a partir daquilo que nos sussurra o grande pensamento de João da Cruz:


“porque o mesmo amor três têm,
e sua essência se dizia:
que o amor quanto mais uno,
tanto mais amor fazia". (1)


FIM DA PRIMEIRA PARTE

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(1) CRUZ, João da, Romances trinitários e cristológicos, Romance n°. 1.

domingo, 28 de abril de 2019

Três grandes exposições acerca do sentido da Igreja em nosso tempo

1. Filosofia Mística: Uma necessidade iminente para a Igreja

Trata do complexo conceito da vocação mística-filosófica, imprescindível para a Igreja em nosso tempo.


2. Filosofia da História da Igreja. O que é o Ecumenismo. O que é o Sectarismo. O que é igreja e o que não é

Trata da importância de definir, em termos filosóficos, aquilo que é a igreja, e da necessidade de abordar o ecumenismo em conjunto com o problema do sectarismo.


3. O espírito da Igreja: Compreendendo por que ela é um conhecimento aberto para o mundo

Trata da diferença específica entre um conhecimento fechado em si mesmo e o conhecimento específico da igreja, que é aberto para o mundo.

Define quem é o místico.